“Não sabemos lidar com a morte”, diz Camila Vasconcelos sobre o envelhecimento no Brasil

A advogada e professora de Bioética da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Camila Vasconcelos, afirmou que o envelhecimento da população brasileira exige maior preparo da sociedade e dos profissionais de saúde para lidar com o fim da vida e os cuidados paliativos. Em entrevista ao Jornal da Bahia no Ar, nesta quarta-feira (15), ela destacou que ainda há dificuldade em encarar a morte como parte natural do ciclo humano.

“Há um despreparo não só em relação a nos percebermos finitos. Quando falamos de envelhecimento, falamos de um preparo nessa compreensão de que não somos eternos e é um assunto que vulnerabiliza”, afirmou. Segundo ela, o tema ainda é evitado inclusive em situações delicadas, como o fim da vida de crianças e adolescentes. “Não lidamos muito bem com o assunto morte”, completou.

A especialista defendeu a necessidade de ampliar o debate sobre o tema, inclusive no campo acadêmico e institucional. “Penso que a palavra morte deve ser muito dita, precisamos entender as fases da vida e a morte é uma delas. Estamos começando a mudar um pouquinho esse ponto de vista”, disse. De acordo com Camila, avanços têm ocorrido com o fortalecimento dos estudos em bioética e com novas normas do Conselho Federal de Medicina e do poder legislativo.

Ela também criticou a forma como os cuidados paliativos foram historicamente encarados dentro da medicina. “Esse processo de refutar a morte é algo tão marcante na nossa sociedade que, até dentro da medicina, durante um bom tempo, a área dos cuidados paliativos era vista como se não houvesse mais o que fazer, quando é o contrário. Há muito o que se fazer”, explicou. Para a professora, embora haja avanços, o tema ainda é tratado como tabu.

Sobre a prática dos cuidados paliativos, Camila ressaltou a importância de evitar intervenções que apenas prolonguem o sofrimento do paciente. “Temos que enfrentar e deixar claro que não insistir despropositadamente com tecnologias que só levam ao prolongamento do sofrimento, suspender essas medidas e manter cuidados paliativos é uma das melhores coisas que você pode fazer por um paciente”, afirmou. Para a especialista, o desafio agora é preparar a sociedade e os profissionais de saúde para essa mudança de perspectiva. 

Confira entrevista na íntegra: