Emails obtidos pela Polícia Federal (PF) indicam que uma conta bancária identificada como Flávio Bolsonaro estava vinculada ao perfil de usuário master associado ao advogado Willer Tomaz, investigado por suspeita de lavar dinheiro desviado de aposentadorias do INSS. Em maio de 2025, uma funcionária do escritório de Tomaz pediu ao Santander que retirasse a conta desse perfil, e o banco confirmou a exclusão no mesmo dia. A investigação também reúne registros de voos do senador e de familiares pagos por empresas ligadas ao advogado. As informações foram divulgadas pelo UOL neste sábado (10).
As mensagens foram encontradas em arquivos armazenados no iCloud, serviço de armazenamento em nuvem da Apple, durante a investigação sobre descontos associativos indevidos em aposentadorias e pensões do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). O email foi enviado em 22 de maio de 2025 por Fayla Zulmira Menezes, funcionária do escritório de Tomaz. A mensagem solicitava que a conta identificada como “Flávio Bolsonaro” fosse retirada do perfil de usuário master ligado ao advogado. No mesmo dia, o Santander confirmou a exclusão.
O perfil master permite realizar todas as operações de uma conta de pessoa jurídica, enquanto os usuários secundários só podem executar as funções autorizadas pelo administrador. Na avaliação da PF, o registro bancário e os demais documentos encontrados justificam aprofundar a apuração sobre as movimentações financeiras de Tomaz, suas empresas e possíveis relações com agentes públicos. O email, por si só, não comprova que Flávio tenha recebido dinheiro do esquema investigado.
Viagens internacionais pagas por empresas
A PF também identificou pagamentos feitos por duas empresas de Tomaz sediadas em Portugal, a Alcazar Holdings e a Cathedral Holdings, para voos em jatos executivos usados por Flávio Bolsonaro e familiares em 2024 e 2025. O advogado declara ser o único sócio da Alcazar e possuir 24% da Cathedral.
Segundo a investigação, a Alcazar custeou um trecho realizado em janeiro de 2025 entre Fort Lauderdale, nos Estados Unidos, e Brasília, a bordo de um jato Legacy 650. Na aeronave estavam Flávio, a mulher, as duas filhas e Tomaz. O avião também tinha participação de outras empresas, entre elas a Prime You, que teve como sócio Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, preso em março de 2026.
A Cathedral, por sua vez, pagou voos da NetJets, empresa que comercializa cotas e pacotes de horas em aeronaves executivas. A PF identificou ao menos cinco deslocamentos internacionais de Flávio e Tomaz no primeiro semestre de 2025. Em abril, eles viajaram de Lisboa a Nice, na França. Em maio, acompanhados das famílias, fizeram trajetos entre Cascais, Nice e Paris.
PF investiga possível estrutura financeira ligada ao caso do INSS
Willer Tomaz entrou na mira da investigação sobre os descontos indevidos no INSS por causa de sua relação com o senador Weverton Rocha (PDT-MA). Em agosto, a PF cumpriu mandado de busca e apreensão no escritório do advogado, por suspeita de lavagem de dinheiro desviado de aposentadorias. A apuração também investiga a atuação de empresas e escritórios ligados a ele.
De acordo com a PF, essas estruturas poderiam funcionar como um “hub financeiro, patrimonial e logístico” para pessoas investigadas. No caso de Weverton, mensagens encontradas pela polícia tratam de pagamentos de contas, compra de imóveis e repasses em dinheiro. Fayla Zulmira, que enviou o email ao Santander sobre a conta identificada com o nome de Flávio, também aparece nas conversas relacionadas às finanças do senador maranhense.
Outros vínculos sob apuração
A investigação também reúne informações sobre a relação entre Flávio e Tomaz. Em março de 2025, os dois fizeram um safari na África. O senador também utilizou um jatinho do advogado em janeiro daquele ano e um apartamento dele em São Paulo durante a campanha presidencial.
Tomaz é investigado ainda por suspeita de lavagem de dinheiro envolvendo apostas online. Documentos apresentados por sua defesa em uma ação contra a plataforma Blaze indicam que ele apostou R$ 6,6 bilhões em 18 meses, entre janeiro de 2025 e julho de 2026. A defesa alegou que o advogado sofre de ludopatia, vício em jogos, relatou prejuízo de R$ 188,5 milhões e pediu a devolução dos valores enviados à plataforma.
Outro ponto citado no material é a sociedade de Flávio em um escritório individual de advocacia em Brasília. A empresa é administrada por Letícia Caetano dos Reis, cujo irmão, Alexandre Caetano dos Reis, foi alvo da PF por prestar serviços contábeis a Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS e apontado pela investigação como operador financeiro do esquema contra aposentados. Em entrevista à Agência Pública, em 2022, Letícia afirmou que conheceu Flávio por intermédio de Willer Tomaz.

