Matéria originalmente publicada no Jornal Metropole em 1° de outubro de 2026
Foram muitas as ofertas de alto valor feitas pelas bets ao longo dos últimos anos para emplacar anúncios na Radinha, todas devidamente recusadas. A cada novo assédio, um sonoro “não! A razão está estampada nesta página: desde que tal praga se espalhou no Brasil, lá pelos idos de 2018, o Grupo Metropole vinha alertando, quase em carreira solo, sobre o tamanho do problema. Ao assinar a Medida Provisória (MP) que proíbe as apostas online no Brasil, o presidente Lula (PT) não apenas reconheceu os limites da regulamentação, mas coroou o bom e responsável jornalismo feito por nossa equipe na rádio, no jornal impresso e no portal Metro1.
O veto às bets é o desfecho, ainda que provisório, de uma tragédia social e econômica que o grupo combateu de frente, recusando patrocínios milionários, enquanto o jogo destruía orçamentos familiares e superlotava clínicas psiquiátricas, quando não resultava em tragédias.
Primeiro alerta
A primeira capa do Jornal Metropole sobre o tema veio em maio de 2023. A reportagem, “A máfia das apostas”, expunha os bastidores de investigações do Ministério Público sobre esquemas de manipulação de resultados na Série A do Campeonato Brasileiro. O grupo foi além do escândalo esportivo e cobrou que a atividade, liberada sem amarras pelo governo Michel Temer em 2018, fosse regulamentada para proteger a integridade do esporte e o bolso do cidadão.
Em setembro de 2024, com as plataformas consolidadas no cotidiano do brasileiro, a matéria “Aposta de risco” trouxe o alerta do setor varejista, mostrando que o dinheiro destinado a roupas, supermercado e contas básicas estava sendo drenado pelas apostas digitais. Um mês depois, a capa “Desastre nacional” revelou dados espantosos do Banco Central.
Basicamente, revelou o BC, cinco milhões de beneficiários do Bolsa Família haviam transferido R$ 3 bilhões às empresas de apostas apenas em agosto, via Pix. A edição expôs a contradição de verbas para segurança alimentar abastecerem plataformas sediadas em paraísos fiscais, enquanto celebridades e influenciadores ostentavam luxos patrocinados pelas perdas dos mais vulneráveis.
Regulação burlada e explosão na saúde
Mesmo após as primeiras regras federais, em janeiro de 2025, o Grupo Metropole mostrou a fragilidade da fiscalização e como a indústria burlava a proibição de anúncios, distribuindo brindes e disparando links patrocinados nas redes sociais. A cobertura chegou à saúde pública em julho de 2025, com uma matéria que trouxe números da Secretaria da Saúde do Estado (Sesab) apontando salto de mais de 140% nos atendimentos por ludopatia na Bahia.
Ao mesmo tempo, publicava relatos de famílias acompanhadas pelo grupo Jogadores Anônimos em Salvador. Em outubro do mesmo ano, outra reportagem revelou a tentativa de municípios baianos e brasileiros de criarem suas próprias loterias e jogos de azar para arrecadar, mesmo sem aval do Ministério da Fazenda.
Em julho de 2026, a edição trouxe a capa “Vidas destruídas pelas bets”, um dossiê humano com depoimentos de baianos que perderam casas, carros, convívio familiar e a própria vida para o vício em cassinos virtuais e apostas esportivas online.
“Se não der conta, eu acabo”
A decisão do governo federal de colocar um ponto final nas apostas online não pegou a audiência da Rádio Metropole de surpresa. Em 17 de outubro de 2024, em entrevista exclusiva a Mário Kertész, o presidente Lula havia adiantado o passo que acabou dando agora.
“Semana passada, eu tive uma reunião com 14 ministérios sobre as bets. Tínhamos duas opções: ou acabávamos definitivamente com elas ou a gente regulava. Optamos pela regulação. Recebemos a informação de que mais de duas mil bets saíram de circulação. Vamos ver se a regulação dá conta, mas se não der, eu acabo com elas”, antecipou o presidente.
O Grupo Metropole também deu espaço para o enfrentamento que a grande mídia ignorava. Em julho deste ano, a advogada e auditora fiscal Juliana Prates contou que transformou em militância contra as bets a dor de perder o irmão para o vício e o endividamento. Em depoimento, Juliana denunciou o “extrativismo digital” promovido por empresas estrangeiras e criticou o uso de recursos públicos para patrocinar festas com marcas de apostas.
Fim da farra
A regulação, como esperado, não deu conta. Para estancar a sangria, a MP do governo Lula determina a paralisação e proibição imediata da exploração, promoção, intermediação financeira e publicidade de apostas esportivas de quota fixa e jogos de cassino online em todo o território nacional.
Agora, a MP vigora por 60 dias, prorrogáveis automaticamente por mais 60. O Congresso Nacional instalará uma comissão mista de deputados e senadores para analisar o texto e emitir parecer. Para virar lei definitiva, a matéria precisa ser aprovada pelos plenários da Câmara dos Deputados e do Senado Federal em até 120 dias.

