Começou ontem o Dia do Perdão, o Yom Kipur para judeus de todo o mundo

Comecemos pelo calendário. O ano judaico não começa em janeiro. Começa no outono do hemisfério norte, com o Rosh Hashaná, que este ano inaugurou o ano 5787. E não começa com festa, foguete e champanhe. Começa com uma contabilidade. Abrem-se dez dias chamados Dias Temíveis, ou Dias de Retorno, em que se espera que cada um faça o balanço do que fez e do que deixou de fazer. O décimo dia é o Yom Kipur. É o prazo final.

O jejum é integral e dura cerca de 25 horas. Nada de comida, nada de água, nem um gole. Não se trabalha, não se dirige, não se usa couro nos pés, não se tem relações. Doentes, grávidas e crianças estão dispensados, e aqui há um detalhe que costuma surpreender: a lei judaica não apenas permite que um doente coma, ela obriga. Preservar a vida suspende quase todos os mandamentos, inclusive este. Quem jejua contra ordem médica não está sendo piedoso, está transgredindo.

Passa-se o dia na sinagoga. A liturgia é a mais longa do ano, cinco serviços em vez dos três habituais, e é povoada de confissões ditas em voz alta e no plural. Não “eu pequei”, mas “nós pecamos”. Cada um bate no peito enquanto recita uma lista alfabética de faltas, muitas das quais certamente não cometeu. A ideia é comunitária: ninguém se salva sozinho, e ninguém se põe acima da lista.
O Yom Kipur não perdoa o que você fez contra outra pessoa.

Está escrito com todas as letras no Talmude. As faltas entre o homem e Deus, o Dia do Perdão perdoa. As faltas entre um homem e outro homem, o Dia do Perdão não perdoa enquanto o ofendido não for procurado e apaziguado. Nenhum jejum, nenhuma reza, nenhuma sinagoga substitui isso. Se você humilhou alguém, caluniou um colega, enganou um sócio, abandonou um amigo, não adianta passar o dia inteiro implorando ao céu. Tem que procurar a pessoa. Olho no olho. E não basta pedir desculpa: é preciso reparar o dano, quando há dano a reparar, e é preciso pedir de novo, até três vezes, se a primeira for recusada.

O Kol Nidrei  oração cantada  ontem  e que marca o inicio do Dia do Perdão, cuida justamente do que sobra, da esfera restrita entre a pessoa e Deus. O texto declara nulos os votos e juramentos feitos diante do sagrado, aquelas promessas que a gente faz em momento de aflição ou de entusiasmo e depois não cumpre. Nada ali toca contrato, dívida, palavra dada a outro ser humano.

O dia se encerra com o serviço da Neilá. O nome significa “fechamento”, a imagem é a dos portões se fechando ao anoitecer, e é o único momento do ano em que a congregação reza de pé diante da arca aberta, já sem forças, com a boca seca, na luz que some. Quando o céu escurece, soa o shofar, o chifre de carneiro. Um toque só, longo, rouco, sem melodia. Não é música. É um som deliberadamente primitivo, anterior a qualquer refinamento, e quem ouve entende imediatamente para que serve. Depois disso, come-se.

Uma vez por ano, um dia inteiro reservado a uma pergunta que ninguém gosta de fazer: a quem eu ainda devo desculpas?

Hoje, ao anoitecer, o shofar vai soar. A maioria dos nossos ouvintes não vai ouvir. Mas qualquer um pode fazer a parte que interessa, e que não exige sinagoga nenhuma.