Últimos sapateiros de Salvador lutam contra extinção de um ofício com séculos de história

Basta caminhar pela Baixa dos Sapateiros e pela Rua do Taboão para perceber uma contradição: na região conhecida pela tradição dos sapateiros, eles quase não existem mais. Em uma manhã de terça-feira, foram encontradas apenas quatro sapatarias no Centro Histórico. Na própria Baixa, apenas uma.

O cenário ajuda a explicar uma preocupação compartilhada por quase todos os profissionais ouvidos nesta reportagem: uma profissão que faz parte da história de Salvador está sumindo. Quem ainda trabalha no ramo conta que o principal problema hoje não é encontrar material, mas encontrar clientes e, principalmente, aprendizes.

Rumo à extinção

A relação da região com o ofício é antiga. Segundo o historiador Joel Nolasco, mestre em História pela Universidade Federal da Bahia (Ufba), o nome Baixa dos Sapateiros surgiu no Século 19 justamente pela concentração de profissionais ligados ao artesanato, especialmente na área de calçados. Pela proximidade, a Ladeira do Taboão também se tornou um importante ponto de concentração de trabalhadores do couro e dos calçados.

Para Nolasco, o desaparecimento dessas oficinas representa mais do que a perda de estabelecimentos comerciais. Sapateiros, marceneiros, ferreiros e outros trabalhadores eram personagens do cotidiano da cidade e transmitiam seus conhecimentos de mestre para aprendiz, muitas vezes dentro da própria família.

De pai para filho

Flávio Silva, de 33 anos, aprendeu a profissão com o pai e trabalha como sapateiro há duas décadas. A sapataria da família, no Caminho de Areia, existe há 26 anos e conta com a mãe dele no trabalho. A profissão foi o que sustentou a família em mais de 30 anos. 

.Antes, trabalhavam com fabricação de calçados. Com a expansão das grandes empresas, perderam espaço e passaram a atuar com reformas e consertos. Em relação à clientela, Flávio diz que a procura diminuiu, embora ainda considere possível viver da profissão.

Robson Santa Rita, de 43 anos, tem 20 anos de profissão e aprendeu o ofício com o primo, que por sua vez havia aprendido com o pai de Robson. A irmã dele, Flaviane Santa Rita, de 38 anos, trabalha especialmente com pintura, costura e reparos. Para os irmãos, muitos jovens não demonstram interesse em aprender, enquanto os profissionais mais antigos estão morrendo ou, simplesmente, deixando o ramo.

Tempo do ‘feito sob medida’

Igor Santos, de 46 anos, começou a aprender o ofício com o pai aos 12 anos. Sua trajetória é marcada principalmente pela fabricação de calçados, mas a queda desse mercado fez com que passasse a trabalhar também com consertos. Ele defende a qualidade do trabalho artesanal, que permite fabricar um calçado personalizado e mais durável.

O problema é que o custo de produção é maior e a concorrência com produtos vendidos pela internet dificulta a sobrevivência tanto de pequenos fabricantes quanto de quem conserta. Igor não vê, hoje, sinais suficientes de renovação para garantir a permanência do ofício entre as próximas gerações.

Um fio de esperança

Hudson Sena, de 66 anos, é uma exceção entre os entrevistados. São 53 anos trabalhando com calçados. Aprendeu com o pai ainda criança, passou por Feira de Santana, trabalhou durante anos no Sul do país para se aperfeiçoar e voltou a Salvador.

Ele reconhece que o número de sapateiros antigos diminuiu muito e que existe dificuldade para encontrar profissionais completos, capazes de acompanhar a fabricação de um calçado do início ao fim. Ainda assim, não acredita que a profissão vá desaparecer. Hudson entende que sempre haverá pessoas precisando de calçados e, consequentemente, de reparos e serviços especializados.

Memória que se vai

Alemão, de 48 anos, começou a trabalhar como sapateiro aos 10 anos e tem uma sapataria conhecida no Taboão. Sua trajetória pertence a uma época em que aprender um ofício significava ter que passar os conhecimentos para alguém, sendo família ou não. O importante era ter para quem passar. Hoje, diz que esse caminho está cada vez menos comum. Já tentou ensinar jovens que, em uma semana, desistiam do ofício.

É essa mudança que preocupa Joel Nolasco. Para o historiador, preservar as ruas e os prédios não significa necessariamente preservar a vida que existia dentro deles. Mas as ferramentas, os cheiros, as técnicas e as relações construídas nas oficinas também fazem parte da memória da cidade. Na ironia da fama e do nome, a Rua do Taboão e a Baixa dos Sapateiros ainda têm sapateiros, porém, cada vez mais difíceis de encontrar.