Eleições linhas áreas: conheça os candidatos da Bahia que têm avião particular para usar na campanha

Matéria originalmente publicada no Jornal Metropole em 17 de setembro 

Na política baiana, promessa de campanha costuma levar muita gente às alturas. Este ano, alguns candidatos resolveram ultrapassar a fase das juras e já vivem cruzando o céu de um lado para outro. Basta olhar a declaração de bens entregues à Justiça Eleitoral, onde dez deles aparecem como proprietários, de forma parcial ou total, de aviões particulares.

Em relação a valores, o comandante da pista é o ex-deputado Ronaldo Carletto (Avante), candidato a primeiro suplente do senador Jaques Wagner (PT). Ele declarou um helicóptero Robinson R66, avaliado em R$ 3,75 milhões. Sozinho, o brinquedo aéreo representa mais da metade dos R$ 7,4 milhões de patrimônio declarados por Carletto. Para fugir do trânsito e chegar rápido aos currais eleitorais, é uma beleza de opção

A lista inclui ainda o deputado estadual Marcinho Oliveira (PDT), que declarou 50% de um bimotor Embraer EMB-810C, matrícula PT-RFJ, ano 1980, por R$ 400 mil. Já Paulo Azi (União Brasil), que tenta se reeleger federal, informou uma Piper Seneca PA-34-220T, matrícula PT-WTA, por R$ 300 mil. Os dois foram os únicos a informar o número do prefixo das aeronaves, que permite saber tudo sobre a aeronave.

Sócios de jatinho

Na lista dos que informam apenas a posse de aeronave e o modelo, o deputado estadual Sandro Régis (União Brasil), declarou possuir 50% também de um Embraer EMB-810C, avaliado em R$ 700 mil. No mesmo movimento, o deputado federal Leur Lomanto Jr (União Brasil), aparece com 33,33% de um bimotor Piper Seneca PA-34-220T, avaliados em R$ 300 mil.

E aí está uma das curiosidades desse hangar eleitoral: a aeronave de Leur e Paulo Azi é a mesma. Para completar, o ex-deputado estadual Adolfo Menezes, nomeado este ano para o Tribunal de Contas dos Municípios (TCM), é sócio da dupla nos 33% restantes, segundo informações confirmadas pelo Jornal Metropole junto à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Em outras palavras, é um avião com uma sociedade que parece mais organizada que muita bancada parlamentar.

Declarações tipo ‘meia-boca’

Outro integrante da tropa do ar, o deputado federal João Carlos Bacelar (PT) fez mistério: declarou uma aeronave de R$ 396 mil, mas não informou sequer modelo ou prefixo. O deputado estadual Rosemberg Pinto (PT) informou possuir um monomotor Embraer Corisco, segundo ele, de R$ 300 mil.

No mesmo compasso, o deputado federal Paulo Magalhães (PSD) foi além e colocou duas aeronaves na lista: um bimotor Baron 58 por R$ 150 mil e um Beechcraft, sem modelo informado, por R$ 40 mil.

No reino dos tucanos de asa larga, o deputado estadual Tiago Correia (PSDB) declarou participação em uma aeronave de R$ 140 mil, sem informar modelo. O deputado federal Adolfo Viana, também do PSDB, informou 10% de outra aeronave Embraer, por R$ 69 mil, mas sem indicar o tipo.

Descompasso entre valores

Quando se compara os valores das aeronaves declaradas ao TSE com os preços do mercado de jatinhos, surgem os descompassos. No mercado de usados, a Embraer EMB-810C Seneca II aparece anunciado por cerca de R$ 1,5 milhão. A metade declarada por Sandro Régis, de R$ 700 mil, parece mais próxima da realidade.

Já os 50% de Marcinho Oliveira, avaliados em R$ 400 mil, projetariam uma aeronave inteira de R$ 800 mil — quase 50% do que é anunciado. Ou o avião é uma pechincha ou o segmento anda cobrando muito caro para sair do chão.

No Piper Seneca, a diferença ganha altitude. Um Seneca III de 1983 aparece anunciado por cerca de R$ 2,4 milhões. Os 33,33% declarados por Leur Lomanto Jr., por R$ 300 mil, projetariam um valor de R$ 900 mil para o avião inteiro: menos da metade do preço pedido.

O Corisco de Rosemberg, avaliado em R$ 300 mil, também fica bem abaixo do mercado. Aeronaves do modelo aparecem anunciadas por R$ 900 mil a R$ 950 mil. Na declaração eleitoral, portanto, vale aproximadamente um terço do preço encontrado nos anúncios.

Deputado voa em dose dupla

Mas nenhum caso provoca tanta turbulência quanto o Baron 58 de Paulo Magalhães, declarado por apenas R$ 150 mil. No mercado de usados, modelos como esse aparecem entre R$ 2,78 milhões e R$ 7 milhões, conforme ano e configuração. É uma diferença tão grande que, se fosse possível comprar um Baron por esse preço, provavelmente haveria fila no hangar.

É preciso lembrar que declaração de bens não é avaliação de mercado. Estado de conservação, horas de voo, motor e documentação, entre outros, podem alterar bastante o valor. E anúncio é preço pedido, não negócio fechado. Ainda assim, fica a provocação: na hora de declarar, alguns aviões parecem viajar de classe econômica. No mercado, modelos semelhantes querem mesmo é primeira classe.