A conta que não fecha: enquanto homicídios recuam, feminicídios batem recorde no Brasil

Há um levantamento que insiste em desafiar a lógica. Enquanto o Brasil reduz, ano após ano, o número de mortes violentas, um crime segue crescendo na direção oposta: o feminicídio. Em 2025, o país registrou 1.571 mulheres assassinadas por razões de gênero, o maior número desde que esse tipo penal foi criado, em 2015. São quatro mulheres mortas por dia. A pergunta que fica é inevitável: se a violência diminui, por que as mulheres continuam morrendo?

Para a pesquisadora Raquel Souza, especialista em violência urbana do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, órgão responsável pelo levantamento, os dados mostram que o país tem conseguido enfrentar parte do avanço dos chamados crimes violentos letais intencionais – homicídios dolosos, latrocínios e lesões corporais seguidas de morte. 

Curva inversa

Em 2025, a queda no índice de mortes violentas foi de 8%, com 19,1 vítimas a cada 100 mil habitantes, a menor taxa desde 2012. No entanto, o Brasil ainda falha em interromper os assassinatos baseados em gênero antes que ela se torne letal. Tanto que os feminicídios estão em curva reversa, com alta de 4% em relação a 2024.  

Raquel Souza explica que um dos principais problemas está justamente no momento anterior ao feminicídio: a proteção que não chega ou não consegue ser mantida. “O aumento reflete bastante o descumprimento de medidas protetivas de urgência, situações em que a mulher já procurou o Estado, denunciou o agressor e recebeu uma determinação judicial, mas ainda assim permanece vulnerável”, ressalta.

Realidade baiana

Embora o fórum não forneça dados específicos sobre feminicídios nos estados, eles são dispensáveis diante da realidade quase que cotidiana enfrentada pelas mulheres. Na Bahia, esse tipo de crime aparece em diferentes bairros de Salvador, atravessa cidades da Região Metropolitana e chega ao interior do estado. São histórias com nomes, endereços e trajetórias interrompidas.

Em Periperi, no Subúrbio da capital, Fabiana Correia Cardoso, de 43 anos, foi assassinada em dezembro de 2025 pelo ex-companheiro que, segundo a investigação, escondeu o corpo no freezer. No Engenho Velho da Federação, a cuidadora de idosos Ariane Silva Fonseca foi morta a facadas pelo ex-companheiro no último dia 8 de julho, mesmo após ter buscado ajuda e registrado denúncias de agressões anteriores. 

No interior, os registros também revelam a dimensão do problema. Em Ilhéus, no sul do estado, um homem foi preso suspeito de matar a companheira, Bárbara Reis Santos Lima, a facadas, em outubro do ano passado. Em Camaçari e outras cidades da Região Metropolitana, operações da Secretaria da Segurança Pública e da Ronda Maria da Penha têm buscado localizar agressores que violam medidas protetivas, em uma tentativa de evitar que ameaças se transformem em mortes como as descritas acima.

Crime cometido em escala gradativa

Todo feminicídio parece concretizado quando a polícia chega ao local do crime e a imprensa descreve em detalhes como a vítima foi morta. Mas a violência começou muito antes. No controle sobre a roupa. Nas brigas, conflitos e ciúmes. Até que o medo passa a morar dentro de casa. O assassinato não inaugura o assassinato. Ele a encerra.

Mas o feminicídio não cabe apenas dentro de um relacionamento. É um crime que vai além da intimidade. Ele nasce sempre que uma mulher é punida por exercer direitos que jamais deveria precisar justificar: dizer “não”, ir embora, recusar, denunciar, ocupar espaços, existir. No fim, o recado é o mesmo. Não importa se o agressor é um companheiro, um ex, um parente ou um desconhecido. O alvo é a mulher. 

Esfera dos machos

O feminicídio também não tem origem, necessariamente, em fóruns obscuros da internet. Pode começar em um vídeo sobre academia, desenvolvimento pessoal ou autoestima masculina. Depois surgem conteúdos sobre “como deixar de ser um homem fraco”, “como recuperar sua masculinidade” ou “como nunca mais ser rejeitado”. 

Aos poucos, o algoritmo entrega novos vídeos. Alguns falam sobre relacionamentos. Outros dizem que homens estariam sendo manipulados pelas mulheres. Em seguida aparecem influenciadores que transformam frustrações afetivas em explicações simples para problemas complexos: a culpa seria sempre delas.

É nesse ambiente que muitos usuários passam a ter contato com comunidades conhecidas como machosfera – um conjunto de grupos que compartilham discursos sobre masculinidade, relações de gênero e poder. Nem todos defendem as mesmas ideias, mas muitos convergem na rejeição ao feminismo e na construção da imagem da mulher como adversária, ameaça ou responsável pelas frustrações masculinas.

Como nascem os feminicidas

A antropóloga Márcia Dias, da Fundação Getúlio Vargas, explica que esse ambiente não produz automaticamente um agressor, mas ajuda a vitaminá-lo. “O feminicídio é um crime de poder. É alimentado por uma cultura que ainda associa masculinidade ao domínio e que encontra nas redes sociais novos espaços para legitimar discursos de ódio e controle contra as mulheres”, destaca.

Dentro desse universo está a chamada red pill, talvez a vertente mais conhecida. O nome foi retirado do filme Matrix (1999), em que a pílula vermelha representa o despertar para uma verdade oculta. E qual seria essa verdade? A de que mulheres manipulam relacionamentos, que o feminismo retirou direitos masculinos e que seria necessário “retomar o controle”.

Outras comunidades também fazem parte desse ecossistema. Os incels, abreviação de “celibatários involuntários”, reúnem homens que atribuem às mulheres a responsabilidade por suas dificuldades afetivas e, em espaços mais radicais, transformam essa frustração em discursos de ódio. 

“O ambiente digital não cria, sozinho, um feminicida. Mas pode fortalecer uma visão de mundo em que a violência encontra justificativas”, conclui Márcia Dias.