Igreja da Lapinha caminha para o tombamento após mais de 250 anos de história

Muito antes do cortejo do 2 de Julho tomar as ruas de Salvador, é na Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Lapinha que começam as celebrações pela Independênciado Brasil na Bahia. Há 255 anos, o templo acompanha a história da capital e reúne elementos que vão além da religiosidade: abriga tradições populares, preserva uma arquitetura única no país e está diretamente ligado a um dos principais marcos da formação da identidade baiana. Agora, esse conjunto de características pode garantir à igreja um novo reconhecimento, após a Fundação Gregório de Mattos (FGM) dar início ao processo de tombamento municipal do monumento. 

A origem da igreja remonta a 1771, quando foi construída uma pequena capela que, ao longo dos anos, deu lugar ao templo atual. Mas sua relevância vai além da fé. Em 2 de julho de 1823, o local testemunhou a passagem do Exército Libertador durante a consolidação da Independência na Bahia. Desde então, o Largo da Lapinha tornou-se o ponto de partida das comemorações da principal data cívica do estado. Ao lado da igreja, o Pavilhão do 2 de Julho guarda as imagens do Caboclo e da Cabocla, símbolos da participação popular nas lutas para tornar o país livre da Coroa Portuguesa.

À primeira vista, a fachada discreta não revela o que o visitante encontra ao entrar na igreja. Entre 1925 e 1930, o frei e arquiteto Leão Uchoa transformou completamente o templo ao incorporar mosaicos vindos da Espanha, arabescos mouros e inscrições em árabe, entre elas a frase “Esta é a casa de Deus, este é o portão do céu”. O resultado fez da Lapinha a única igreja em estilo mourisco do Brasil, exemplar raro também na América Latina. 

Ligação com Meca

A abertura do processo de tombamento se deu por uma série de fatores, lodos ligados à importância arquitetônica, histórica, cultural e religiosa da Igreja da Lapinha.  Segundo o diretor de Patrimônio e Equipamentos Culturais da fundação, Vagner Rocha, durante as pesquisas preliminares, a equipe identificou outra característica curiosa, ainda não explicada de maneira precisa pelos historiadores: o templo está voltado para Meca, cidade sagrada para os muçulmanos. Trata-se de mais uma coincidência importante nesse processo.

Prazo para tombamento da igreja

A abertura do processo foi publicada no Diário Oficial do Município e marca o início dos estudos que vão avaliar formalmente a relevância histórica, arquitetônica, religiosa, paisagística e cultural do imóvel. Desde a publicação da notificação, a Igreja da Lapinha já está sob regime de tombamento provisório, que garante proteção legal até a conclusão dos trabalhos prévios e a elaboração do dossiê técnico. 

Embora o presidente da FGM, Fernando Guerreiro, tenha afirmado durante as comemorações do 2 de Julho deste ano que o tombamento poderia ser concluído em até quatro meses, o diretor de Patrimônio e Equipamentos Culturais da fundação esclareceu ao Jornal Metropole que o prazo legal é de até 18 meses, podendo ser prorrogado por igual período. A expectativa, segundo ele, é concluir o processo em uma data simbólica para o templo, como as celebrações do 2 de Julho ou a Festa de Reis.

Padre Pinto, o guardião da Festa de Reis

Preservar a Igreja da Lapinha também é proteger um patrimônio que vai além da arquitetura. Todos os anos, no início de janeiro, o templo e seu entorno recebem a tradicional Festa de Reis, manifestação que reúne religiosidade, música e cultura popular. 

Os Ternos de Reis percorrem as ruas do bairro em cortejo e mantêm viva a tradição centenária que abre o calendário dos festejos populares e religiosos em Salvador. O Terno da Anunciação, ligado à paróquia, é dos principais símbolos dessa celebração.

E grande parte dessa valorização da cultura popular está ligada ao legado do padre José de Souza Pinto, o célebrePadre Pinto, que faleceu em 2019. À frente da Igreja da Lapinha de1973 a 2006, ele foi responsável por transformar a Festa de Reis em um dos maiores símbolos culturais da cidade. 

Bailarino de formação clássica e artista plástico, Padre Pinto integrou os Ternos de Reis à programação religiosa da paróquia e valorizou uma manifestação que antes acontecia de forma independente. Também idealizou o estandarte do Terno da Anunciação e o monumento em homenagem aos Ternos de Reis instalado no Largo da Lapinha, além de incorporar às celebrações elementos das culturas afro-brasileira, indígena e popular, para representar a diversidade que marca a formação do povo baiano.

Polêmicas em série

Mas sua atuação acabou provocando reações dentro da própria Igreja Católica. Em 2006, Padre Pinto virou polêmica nacional ao celebrar uma missa durante a Festa de Reis vestido com trajes inspirados em Oxum e em um indígena. A celebração levou ao seu afastamento da paróquia após 33 anos de atuação. 

Em entrevistas concedidas após o caso, o religioso afirmou que sua intenção era promover a chamada “inculturação”, conceito que busca aproximar a liturgia das expressões culturais dos povos. Uma vez afastado, Padre Pinto participou de programas televisivos, foi entrevistado no Programa do Jô e “saiu do armário”.

Deu selinho em Caetano Veloso, chegou a frequentar boates gays, provocou nova polêmica ao afirmar que se tornaria pai-de-santo e acabou reintegrado à Igreja Católica, passando a residir na sede da Sociedade das Divinas Vocações, no bairro de São Caetano, até morrer, em 4 de abril de 2019, aos 72 anos.