O som dos atabaques e do agogô vai ecoar pelas ruas do Santo Antônio Além do Carmo a partir desta quinta-feira (11), durante mais uma edição do tradicional tríduo de Santo Antônio realizado na Rua Direita do Santo Antônio, 559, em Salvador. A celebração, que segue até o dia 13 de junho, reúne moradores, devotos e visitantes em procissões, cantigas, rezas e confraternizações. O diferencial da celebração está na musicalidade, na qual os benditos dedicados ao santo são entoados ao som do ijexá, ritmo afro-brasileiro que transformou a celebração em uma das mais singulares do período junino na capital baiana.
Cantigas de Santo Antônio em ritmo de ijexá
A tradição é conduzida pelo florista e artesão Rodrigo Guedes, que há 20 anos mantém viva uma devoção herdada das avós. Desde 2012, ele incorporou os atabaques e o agogô às rezas. Os instrumentos acompanham todas as cantigas dedicadas a Santo Antônio em ritmo de ijexá, toque de origem afro-baiana conhecido pela cadência suave e envolvente, tradicionalmente associado aos afoxés e às manifestações culturais ligadas à herança africana.
A ideia surgiu em após a criação de um altar temático em homenagem ao Centro Histórico de Salvador. Inspirado pela musicalidade do Afoxé Filhos de Gandhy, Rodrigo decidiu trazer o ritmo para dentro da celebração. A experiência foi tão bem recebida que passou a fazer parte da identidade do tríduo.
Foto: Mônica Barbosa
Celebração que mistura fé e ancestralidade
Segundo Rodrigo, os atabaques não funcionam como uma atração paralela, mas como parte da própria oração. Cada cantiga é acompanhada pelos instrumentos, criando um ambiente que emociona os participantes e reforça a proposta de homenagear Santo Antônio sem abrir mão das raízes culturais e da musicalidade afro-baiana presentes na formação de Salvador.
Embora algumas pessoas demonstrem surpresa ao encontrar uma celebração católica acompanhada por atabaques, o organizador afirma que a maioria se encanta com a experiência. Para ele, o ijexá representa uma forma respeitosa de valorizar a ancestralidade e mostrar que fé, cultura popular e identidade baiana podem caminhar juntas.
Herança deixada por duas avós devotas
O tríduo foi retomado em 2006, quando Rodrigo decidiu resgatar uma prática que havia sido interrompida pela família. Na época, uma simples faixa pendurada na janela convidava quem passasse pela rua a entrar e rezar. A primeira edição reuniu cerca de dez pessoas. Hoje, a celebração lota a residência e se tornou parte do calendário afetivo do bairro.
Rodrigo foi criado pela avó paterna, Elza Guedes, tornando-se o último dos 13 netos educados por ela. A influência também veio da avó materna, Maria do Socorro Pinto, devota de Santo Antônio e proprietária da casa onde a celebração acontece até hoje.
A história guarda uma coincidência simbólica. Devota fervorosa de Santo Antônio, Dona Elza morreu em 13 de junho, exatamente no dia dedicado ao santo. Para Rodrigo, que nasceu, cresceu e continua morando no Santo Antônio Além do Carmo, a continuidade da celebração representa uma herança especial deixada pelas duas avós.
Além das rezas, o encontro é marcado pela partilha da mesa junina. Bolos, mingaus, comidas típicas e o tradicional pãozinho de Santo Antônio são distribuídos entre participantes, comerciantes, vizinhos e visitantes.
SERVIÇO
Local: Rua Direita do Santo Antônio, 559, Santo Antônio Além do Carmo, Salvador
Datas: 11, 12 e 13 de junho
Quinta-feira (11)
18h30: apresentação do Coral do Mosteiro de São Bento;
19h: saída procissão em louvor a Santo Antônio pelas ruas do Largo do Santo Antônio;
19h30: abertura oficial do tríduo e início da primeira noite de reza, com cantigas acompanhadas por atabaques e agogô em ritmo de ijexá.
Sexta-feira (12)
19h30: celebração da segunda noite do tríduo;
Rezas e benditos dedicados a Santo Antônio ao som de atabaques e agogô.
Sábado (13) – Dia de Santo Antônio
Visitações abertas durante todo o dia;
18h: encerramento das celebrações.
Entrada: gratuita.

