O deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) atuou como produtor-executivo de Dark Horse, filme biográfico sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, com atribuições ligadas à gestão financeira e estratégica do projeto. A informação consta em contrato assinado pelo parlamentar e em diálogos obtidos pelo Intercept Brasil.
Os documentos contradizem declarações feitas por Eduardo em uma publicação no Instagram, na quinta-feira (14), quando afirmou ter apenas cedido direitos de imagem para a produção. Os registros indicam, porém, que ele tinha participação direta em decisões sobre financiamento e condução do longa.
Contrato previa atuação em decisões financeiras
Um contrato de produção datado de novembro de 2023, e assinado digitalmente por Eduardo Bolsonaro em janeiro de 2024 — aponta a empresa GoUp Entertainment, sediada nos Estados Unidos, como produtora do filme. O documento também coloca Eduardo Bolsonaro e o deputado federal Mário Frias (PL-SP) como produtores-executivos da obra.
Segundo o contrato, os produtores participariam de estratégias relacionadas ao financiamento do filme, elaboração de documentos para investidores e identificação de fontes de recursos, incluindo incentivos fiscais, patrocínios e captação financeira.
Os registros obtidos pelo Intercept mostram que Eduardo teria responsabilidade compartilhada sobre decisões ligadas à captação e aplicação dos recursos da produção, embora não haja confirmação sobre quem executou efetivamente essas funções.
Mensagens apontam articulação por recursos
Trocas de mensagens entre o empresário Thiago Miranda, fundador do Portal Leo Dias, e o banqueiro Daniel Vorcaro indicam que Eduardo Bolsonaro também atuava nas articulações financeiras do projeto.
Em conversa encaminhada a Vorcaro, Miranda compartilha uma mensagem atribuída a Eduardo sobre a melhor forma de enviar recursos aos Estados Unidos. No trecho, o parlamentar afirma: “O ideal seria haver os recursos já nos EUA. Que dos EUA para o EUA é tranquilo”. Em seguida, acrescenta: “Solução: enviar o máximo possível ainda neste sistema atual, com o remetente atual e etc. Será que conseguimos?”.
A troca de mensagens ocorreu em março de 2025, mesmo período em que Eduardo anunciou licença do mandato para permanecer nos Estados Unidos.
Defesas negam irregularidades
Questionados pela reportagem, Eduardo Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) não responderam até a publicação da matéria. A defesa de Mário Frias afirmou que Eduardo “não é e nunca foi produtor-executivo da produção do filme Dark Horse” e declarou ainda que ele “nunca recebeu qualquer quantia do fundo de investimento cujo produto privado final é o filme”.
As defesas de Jair Bolsonaro e Daniel Vorcaro também foram procuradas, mas não retornaram.
Minuta cita Eduardo como financiador
Outro documento, datado de fevereiro de 2024, traz uma minuta de aditivo contratual em que Eduardo Bolsonaro aparece qualificado como financiador da produção e autoriza o uso de recursos financeiros investidos por ele no projeto. Não há confirmação, porém, se o documento chegou a ser formalmente assinado.
Os registros reforçam uma atuação mais ampla do parlamentar na produção do filme, contrariando a versão apresentada publicamente de que sua participação teria se limitado à cessão de imagem.
Empresa ligada ao filme já foi alvo de investigação
A GoUp Entertainment, produtora envolvida no longa, tem sede na Flórida e possui entre os sócios a empresária Karina Ferreira da Gama e Michael Brian Davis, brasileiro naturalizado norte-americano.
Karina também integra o Instituto Conhecer Brasil, ONG que recebeu ao menos R$ 108 milhões da Prefeitura de São Paulo para operar um contrato de Wi-Fi público. O acordo é investigado pelo Ministério Público desde março deste ano.
A TV Globo informou ainda que o STF tenta intimar Mário Frias para prestar esclarecimentos sobre possíveis irregularidades envolvendo emendas parlamentares destinadas ao instituto. Segundo a emissora, o deputado teria direcionado R$ 2 milhões à organização.

