Em muitos casos, a primeira pessoa que uma vítima de violência doméstica procura não é um policial, um advogado ou um familiar. É alguém da igreja. No Brasil, onde 83,6% da população se declara cristã, segundo o último Censo do IBGE, de 2022, a religião ocupa espaço central na vida cotidiana de milhões de mulheres.
É dentro dos templos que muitas delas encontram pertencimento, apoio emocional, rede de convivência e orientação espiritual. Mas é também nesse ambiente que, durante décadas, inúmeras vítimas ouviram que deveriam “orar mais”, “ter paciência”, “preservar a família” e suportar em silêncio situações de violência física, psicológica e moral.
Os números ajudam a revelar a dimensão desse cenário. A pesquisa Visível e Invisível: a Vitimização de Mulheres no Brasil, divulgada em 2025 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em parceria com o Instituto Datafolha, mostra que 42,7% das evangélicas relataram já ter sofrido agressões praticadas por companheiros ou ex-companheiros. Entre mulheres católicas, o índice é de 35,1%.
Outro levantamento, do Instituto DataSenado, aponta que 53% das mulheres em situação de violência procuram primeiro a igreja antes mesmo da família ou dos serviços públicos de proteção. O dado evidencia o peso que a religião exerce na forma como essas mulheres enfrentam a violência, especialmente, em silêncio.
Quebra de padrão
O debate ganhou repercussão nacional após a fala da pastora Helena Raquel viralizar nas redes sociais durante um dos maiores congressos evangélicos do país. Líder da Assembleia de Deus Vida na Palavra (ADPIV), do Rio de Janeiro, ela tratou de temas como violência doméstica, abuso sexual e pedofilia dentro das igrejas e criticou o silêncio de lideranças religiosas diante desses casos.
Na pregação, Helena questionou a permanência de agressores em posições de autoridade dentro das instituições religiosas. Em um dos trechos mais compartilhados, afirmou que “não existe capacidade de se encontrar na mesma figura um pastor e um abusador; ou é pastor, ou é abusador”.
Nesse contexto de mobilização crescente, Salvador recebeu uma caminhada organizada por lideranças religiosas e mulheres de diferentes denominações evangélicas, cujo objetivo foi levar o tema da violência doméstica para as ruas. A iniciativa faz parte de um conjunto recente de articulações que têm surgido dentro do próprio meio evangélico.
A organização integra o movimento Mulheres Evangélicas contra o Feminicídio, articulado pela pastora e historiadora Gicélia Cruz. O grupo reúne lideranças religiosas, ativistas e mulheres que vivenciaram violência doméstica e passaram a atuar publicamente no enfrentamento ao problema.
Fé, culpa e silenciamento
Para Gicélia Cruz, ainda é comum que vítimas sejam orientadas a suportar situações de violência em nome da preservação da família. “Muitos líderes utilizam trechos isolados da Bíblia para justificar que a mulher permaneça no ciclo de violência”, diz.
A reverenda Bianca Daébs afirma que a forma como textos religiosos foram interpretados ao longo da história contribuiu para a consolidação de desigualdades dentro das igrejas. Segundo ela, a Bíblia passou a ser usada, em muitos contextos, como ferramenta de controle.
“O texto bíblico deveria ser lido tendo como chave o amor, o perdão e a graça, mas virou um manual de culpa e medo”, afirma Bianca. Ela destaca que, em muitos casos, vítimas ainda são responsabilizadas pela violência que sofrem, sendo orientadas a “orar mais” ou “melhorar espiritualmente” para salvar o casamento.
Medo da desconstrução
A administradora e evangélica Dagmar Santos conhece essa realidade de perto. Vítima de violência doméstica durante o casamento com um homem da mesma religião, ela afirma que sua atuação nasce da experiência direta com o problema. “Eu faço essa luta porque sei como dói na pele”, diz.
Segundo Dagmar, muitas mulheres permanecem em silêncio porque temem romper não apenas um relacionamento, mas toda uma construção social e religiosa em torno da família. “Essa mulher blinda esse homem para que as pessoas não saibam qual é a conduta real dele. Para a sociedade ele monta um cenário do homem perfeito, cuidadoso, zeloso.”
Redes de acolhimento
Apesar do cenário de omissão e silêncio, lideranças cristãs afirmam que há um crescimento de redes de apoio dentro das igrejas. Grupos de mulheres evangélicas têm criado espaços de escuta, orientação jurídica e formação para acolhimento de vítimas.
Segundo Dagmar Santos, o objetivo dessas iniciativas é romper o ciclo de violência sem afastar as mulheres de sua fé. “Primeiro a gente acolhe, depois encaminha e acompanha essa vítima para que ela consiga sobreviver e depois voltar a viver”, afirma.
No entanto, a reverenda Bianca Daébs destaca que ainda há um desafio estrutural importante, que envolve a formação de lideranças religiosas para lidar com casos de violência. Segundo ela, muitas igrejas não sabem como encaminhar corretamente vítimas para a rede de proteção. “É preciso saber como acessar as DEAMs (Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher), o Ministério Público, a Casa da Mulher Brasileira e os centros de referência”, afirma.
Debate em construção
O avanço do debate dentro das igrejas ainda acontece de forma gradual, impulsionado principalmente pela articulação entre mulheres que passaram a compartilhar experiências e reconhecer padrões de violência antes naturalizados. “Hoje a gente conseguiu romper essa bolha. As mulheres começaram a questionar, buscar outros caminhos e entender que fé não pode ser justificativa para sofrimento”, destaca Dagmar.
Ela avalia que, apesar da ampliação do tema para o espaço público e religioso, o enfrentamento da violência doméstica no meio evangélico ainda depende de mudanças internas nas próprias estruturas das igrejas e de maior preparo para acolhimento das vítimas. “Ainda é um processo de formiguinha, mas a gente luta porque precisa deixar um futuro mais saudável para as nossas filhas”, completa.

