Igreja de Ouro enfrenta graves problemas estruturais, e obras atrasam

O que parecia, à primeira vista, um problema pontual no teto da Igreja de São Francisco de Assis, também conhecida como Igreja de Ouro, no Pelourinho, se revelou algo muito maior. Essa avaliação foi consolidada em uma reunião realizada em fevereiro deste ano, quando o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) apresentou um diagnóstico mais aprofundado sobre o futuro das obras emergenciais e confirmou a inclusão do templo, ícone do Barroco brasileiro datado do fim do Século 18, na lista de projetos financiados pelo Novo PAC.

O encontro marcou uma virada na compreensão do problema e explica parte dos seguidos atrasos na conclusão das obras de recuperação, com custo inicial de R$ 20 milhões. Com as intervenções, ficou claro que a queda do forro da igreja, cujo impacto deixou uma turista morta e cinco feridos em 5 de fevereiro do ano passado, não surgiu de maneira tão simples, mas de um conjunto de falhas acumuladas ao longo dos anos. 

O que se reflete na sequência de prazos que precisaram ser revistos. A entrega inicial estava prevista para outubro de 2025. Depois foi adiada para fevereiro, agora, a nova previsão é até o fim da primeira quinzena de abril.

Problemas em série

Entre os principais entraves às obras, estão a necessidade de retirar e catalogar cada pedaço do forro que caiu. A lista inclui também uma nova análise detalhada da situação do teto e da cobertura, além do escoramento de partes instáveis e do reforço do que ainda permanecia fixado. 

Também foram identificadas demandas como limpeza e tratamento das peças artísticas que se desprenderam e a revisão quase completa do telhado, com substituição de cerca de 90% das telhas e de parte da estrutura de madeira, seguida de um processo de imunização para evitar cupins. Esse conjunto de problemas evidenciou que os danos eram mais amplos e exigiam um trabalho mais cuidadoso do que o previsto inicialmente.

Causa e efeito

Com o avanço das análises, os técnicos escalados para conduzir os trabalhos de recuperação passaram a revisar o cronograma das obras. A arquiteta e urbanista Jamille Ponte, especializada em Conservação e Restauração de Monumentos e Núcleos Históricos pela Ufba, explica que o acidente não foi “um evento isolado” e precisa ser entendido dentro de um contexto maior. “A queda do forro foi um sintoma, não a causa”, afirmou.

Segundo Jamile, diferentes fatores podem estar envolvidos na queda, como infiltrações recorrentes, degradação da estrutura em madeira, falhas nos sistemas de fixação e o próprio envelhecimento dos materiais. São problemas que, muitas vezes, não aparecem de forma evidente, até que se manifestem de maneira mais grave. 

Manutenção esquecida 

A restauradora baiana Rita Moraes acrescenta que o acidente revelou “comprometimento estrutural grave e uma grande falta de manutenção”. Para ela, a necessidade de substituir a maior parte do telhado, por exemplo, comprova o alto nível de deterioração no interior da igreja.

Diante disso, o cuidado com cada etapa se torna essencial. Os fragmentos do forro precisam de cuidados que vão desde a retirada até o armazenamento. “Eles precisam ser catalogados por se tratar de patrimônio histórico e artístico”, explica Rita Moraes. Esse processo permite que cada peça seja identificada, estudada e, quando possível, recolocada em sua posição original.

Intervenção emergencial

Outras medidas também fazem parte do processo de recuperação da Igreja de Ouro. O escoramento de áreas instáveis, explica Jamile Ponte, “é uma intervenção emergencial de estabilização” que evita novos desabamentos e permite que o trabalho avance com segurança. Já o tratamento das peças interrompe o processo de degradação.

A cobertura também revela parte importante do problema. A substituição de cerca de 90% das telhas, segundo a arquiteta, “é outra prova de que houve uma falha crítica no plano de vistoria e manutenção da igreja”. O madeiramento, que sustenta toda essa estrutura, também exige atenção. “Ele é o ‘esqueleto’ do telhado”, explica Rita Moraes. A restauradora destaca ainda a importância da imunização para garantir a durabilidade da estrutura.

De fissura a problema estrutural

Antes do desabamento, o que havia era um sinal aparentemente simples, quase discreto no meio da grandiosidade do templo. O frei Pedro Júnior Freitas da Silva, guardião da igreja, lembra que o alerta surgiu a partir de uma fissura no forro. Naquele momento, segundo ele, não havia como dimensionar o risco real, mas ainda assim, disse ter enviado um e-mail ao Iphan pedindo vistoria. 

Meses antes, em outubro de 2024, Rita Moraes esteve no local junto com o também restaurador João Rossi, como parte de um grupo técnico escalado para avaliar a estrutura. Na ocasião, ambos haviam identificado pontos que chamaram atenção. Em alguns trechos, segundo ela, o desgaste já avançava para o desprendimento de elementos.

Esse conjunto de sinais – fissuras, áreas desgastadas e partes já se soltando – mostra que o desabamento não surgiu de forma repentina. Ele foi sendo anunciado aos poucos, ainda que difícil de prever sem análise técnica mais aprofundada. Como o próprio frei destacou, “não se esperava algo tão grande”.

Perdas e danos

O que desabou não foi apenas parte do teto. Para frei Pedro, sem dúvidas houve abalo na vida da comunidade que tinha ali seu principal espaço de encontro e de expressão da fé. A rotina precisou ser reorganizada às pressas. As missas foram transferidas para a vizinha igreja da Ordem Terceira. Atividades que antes ocupavam o convento do templo deixaram de acontecer, criando um vazio não só físico, mas também simbólico.

“A cidade perde muito. Nós estamos falando de um conjunto franciscano que marca a cidade de Salvador devido ao seu tempo, bem como as visitas de toda a parte do mundo que se deslocava até o Centro Histórico de Salvador só para entrar na Igreja de Ouro”, conta, ao lamentar a redução no fluxo de visitantes ao Pelô. Do lado de fora, o impacto também foi sentido e afetou diretamente pequenos comerciantes do entorno.