Matéria publicada originalmente no Jornal Metropole em 05 de março de 2026
Uma escultura de uma mulher cercada por crianças domina a entrada. Com uma criança no colo e outras em volta, a figura da Caridade acolhe e protege, simbolizando as virtudes ligadas à fé e à ideia de amparo. A cena, em espaço aberto, antecipa o que o visitante encontra ao longo do percurso: um lugar onde beleza, religiosidade e história caminham juntas – e que, mais adiante, revela a famosa varanda voltada para a Baía de Todos os Santos, hoje um dos cenários mais compartilhados nas redes sociais. É ali, sob o céu que se recorta no pátio interno, que começa a experiência no Museu da Misericórdia, instalado em um prédio secular da Santa Casa de Misericórdia da Bahia, no Centro Histórico de Salvador.
Desde a reabertura, em dezembro de 2024, o museu já recebeu aproximadamente 73 mil visitantes, entre público espontâneo e grupos agendados, de crianças a idosos. O número chama atenção e ajuda a explicar por que o espaço virou assunto nas redes, impulsionado pelas fotografias e pela imponência do conjunto arquitetônico. Mais do que um dado positivo, o número mostra a força de um patrimônio que nasceu junto com a cidade e que segue despertando interesse.
Foto: Divulgação
No percurso, cores marcantes ajudam a compor a local. O marrom da madeira, o vermelho do veludo e dos tecidos, o dourado das molduras, o verde das grades e o branco das paredes surgem como parte da composição arquitetônica. A Igreja da Misericórdia, parte do roteiro e ainda palco de casamentos, impressiona pelo barroco talhado em madeira e pelos azulejos portugueses que revestem paredes. Do Primeiro Coro, acima da porta principal, a vista do altar-mor amplia a sensação de mergulho em outro tempo.
Vastidão secular
Reduzir o Museu da Misericórdia à galeria de arcos voltada para a baía é ignorar o que o torna singular. O edifício do Século 17 foi erguido para abrigar o Hospital da Caridade, o primeiro da Bahia, administrado pela Santa Casa de Misericórdia. Essa origem marca toda a experiência: não se trata de um prédio adaptado, mas de uma construção pensada para acolher a vida desde os primórdios de Salvador.
Foto: Divulgação
Um dos elementos que fazem com que o museu se diferencie de outros é a própria edificação. Segundo a museóloga Osvaldina Cezar, a arquitetura reúne elementos raros, como o espaço com escadaria e varanda coberta, além do revestimento em mármores europeus aplicados na técnica do embrechado, basicamente, com fragmentos de materiais diversos, como pedras e conchas.
Ossos e ofícios
O ossuário, que durante anos recebeu membros da irmandade, traz pintura amarela com motivos florais, entre eles a papoula, associada ao sono profundo. No subsolo, a cisterna construída para abastecer o hospital foi aberta à visitação recentemente, revelando a engenharia que sustentava o funcionamento da instituição.
A singularidade também está na sobreposição de funções: igreja, hospital, espaço administrativo e, agora, museu. O visitante atravessa salas como a provedoria, a antiga enfermaria feminina e o salão nobre, por onde circularam doentes, religiosos, gestores e benfeitores. A experiência não é apenas estética; é histórica. O prédio fala por si, como um documento de pedra e madeira que revela hábitos, práticas de saúde, organização social e religiosidade de outra época.
Joias do acervo
Entre as peças que mais impressionam estão as 14 telas da Paixão de Cristo, datadas do Século 18 e atribuídas ao mestre José Joaquim da Rocha. O conjunto retrata os passos que antecedem a crucificação e era utilizado na tradicional Procissão dos Fogaréus. Além da arte, as telas serviam como instrumento de catequese visual, guiando fiéis pela dor, pelo sofrimento e, em especial, pela ideia de redenção. Em um museu que nasce da prática da caridade, a narrativa da Paixão de Cristo reforça a ligação entre sofrimento humano e misericórdia divina.
Osvaldina Cezar destaca ainda uma imagem de São Jorge em madeira policromada, do Século 18, representado sem o cavalo e o dragão – iconografia incomum que surpreende visitantes acostumados à cena da batalha, da criatura diabólica contra o santo. A ausência desses elementos desloca o foco para a figura de São Jorge em si, reforçando sua dimensão espiritual. Há ainda os evangelistas em madeira com banho de prata, datados do Século 19. Curiosamente, os símbolos de Mateus e João aparecem invertidos, diferente da iconografia clássica.
Foto: Divulgação
Salão Nobre de vendedores de escravizados
O Salão Nobre concentra a imponência que costuma encantar à primeira vista. A mesa extensa em jacarandá, cercada por 31 cadeiras alinhadas, ocupa o centro do espaço como símbolo de autoridade. O teto pintado com anjos, santos e molduras douradas amplia a sensação de grandiosidade e fé. Entre as cadeiras, destaca-se aquela onde se sentou Dom Pedro II, durante visita para avaliar as instalações do antigo Hospital da Caridade. Tudo no ambiente comunica poder, organização e prestígio.
Mas a mesma sala que impressiona pela beleza também impõe reflexão. Nas paredes, a galeria de benfeitores homenageia homens que contribuíram financeiramente para manter a instituição. Parte deles, no entanto, esteve ligada ao tráfico de pessoas escravizadas. A filantropia que ajudou a sustentar a Santa Casa convive com a memória de uma economia baseada na violência e na desumanização. O museu, de maneira digna e justa, não esconde nada disso; muito pelo contrário, expõe.
Memória e atualidade
Se a arquitetura remete ao século 17, a presença nas redes sociais projeta o museu ao presente. A beleza dos espaços e dos salões ganhou destaque em fotos e vídeos, aproximando novos públicos. O espaço também recebe exposições temporárias, muitas vezes com curadoria, ampliando o diálogo com temas contemporâneos. Assim, história e atualidade se encontram.
Como ir
De terça a sexta: das 9h às 16h30
Sábado: das 9h às 16h
Entrada: R$ 30 inteira, R$ 15 meia.
Endereço: Rua da Misericórdia, nº 06, Praça da Sé

