A tentativa de setores da elite econômica de fazer o governo Lula adotar propostas defendidas por Flávio Bolsonaro e rejeitadas pela população nas urnas foi criticada pelo filósofo Vladimir Safatle. Em participação no programa Três Pontos, da Rádio Metropole, nesta quarta-feira (4), ele afirmou que a derrota eleitoral também representou uma rejeição ao projeto econômico do candidato e apontou o distanciamento de grupos econômicos em relação às demandas populares.
“Isso mostra a completa desconexão dessa elite brasileira em relação a que são verdadeiramente os anseios populares. O programa que foi derrotado não foi só o Flávio Bolsonaro. Foi derrotado o programa econômico que ele representava, que ele queria implementar. Porque a população sabe muito bem que esse programa não lhe convém. Não lhe convém”, afirmou.
Elite econômica e programa derrotado nas urnas
Entre as propostas econômicas apresentadas por Flávio estavam a redução de despesas públicas, o corte de pelo menos dez ministérios, a revisão das regras fiscais e a retomada de privatizações, além dos acordos entre patrão e funcionário que, na prática, só beneficiariam os patrões. Para Safatle, mesmo após a rejeição desse projeto nas urnas, setores econômicos tentam pressionar o governo Lula a adotar essas medidas e manter integrantes ligados à sua implementação. “O sujeito quer que o governo assuma o programa econômico que foi derrotado nas urnas. Ele quer que ele assuma, inclusive, até mesmo as pessoas que implementaram esse programa”, disse.
Mobilização popular e ameaça fascista
O professor da Universidade de São Paulo (USP) afirmou que a campanha ganhou outra dimensão quando apoiadores de Lula passaram a ocupar as ruas e as redes sociais. Para ele, a mobilização não foi apenas resultado de uma mudança na estratégia de comunicação, mas uma reação espontânea de diferentes setores da sociedade diante da percepção do risco de avanço do fascismo. “Quem ganhou a eleição dessa vez foi efetivamente uma emergência do poder popular no Brasil. Porque o poder popular pode aparecer também através da consciência, da urgência do perigo”, declarou.
O filósofo também alertou que Lula enfrentará tentativas contínuas de desestabilização, com resistência de setores do Congresso, do Senado, de governos estaduais e do poder financeiro. Para Safatle, o governo precisará apresentar propostas ousadas e estar preparado para um confronto político mais intenso do que o enfrentado anteriormente. “Ele vai entrar num nível de briga que ele não conheceu antes. Não é o mesmo nível do ano anterior, não é o mesmo nível do ano anterior. É um outro nível”, concluiu.
Confira o programa na íntegra:

