O jornalista Jamil Chade alertou para os riscos de concentração de poder e enfraquecimento da democracia no Brasil em meio à disputa presidencial entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Em entrevista à Rádio Metropole nesta terça-feira (13), ele destacou a importância da divisão entre os Poderes e afirmou que o país vive um momento decisivo para o futuro das instituições democráticas.
Chade chamou a atenção para a possibilidade de um mesmo grupo político controlar o Executivo, o Legislativo e o Judiciário. Segundo ele, esse cenário comprometeria o princípio de controle entre os Poderes, fundamental para o funcionamento da democracia.
O jornalista também destacou que a eleição brasileira desperta interesse internacional por representar um teste à capacidade das instituições de resistir a pressões externas. “Uma democracia resiste ou não às pressões de Donald Trump? Essa é uma preocupação muito grande das democracias e das não democracias”, afirmou.
Para Chade, a análise internacional não se limita aos candidatos que disputam o segundo turno, mas envolve a capacidade de uma democracia consolidada, como a brasileira, de resistir à interferência externa e à atuação das grandes empresas de tecnologia.
O jornalista avaliou ainda que a democracia perde força quando não consegue responder às necessidades da população. Na avaliação dele, a desigualdade econômica e a falta de resultados concretos em áreas como saúde e educação contribuem para a insatisfação dos cidadãos e para o questionamento das instituições. “A democracia não é o destino, é a tecnologia criada para que todos tenham direitos, inclusive o de sonhar e implementar esses sonhos”, declarou.
Nesse cenário, Chade afirmou que a extrema direita oferece caminhos que apresentam como soluções para problemas que os governos não conseguem resolver. Ele descreveu esse movimento como uma tentativa de conquistar apoio por meio de promessas que não necessariamente se traduzem em resultados democráticos. “O vendedor de ilusão, charlatão, que diz ser a resposta que o sistema não dá”, afirmou, ao comentar a atuação desse campo político.
Segundo turno
Sobre o segundo turno, o jornalista disse acreditar que o resultado ainda pode ser influenciado por eleitores que não votaram na primeira etapa ou cujos candidatos ficaram de fora da disputa. Ele citou cerca de 33 milhões de brasileiros que não compareceram às urnas e avaliou que as duas campanhas devem buscar esse eleitorado.
Chade também afirmou perceber uma mudança na forma como a candidatura de Flávio Bolsonaro é apresentada. Segundo ele, tem observado com mais clareza a associação do senador à extrema direita, e não apenas à direita.
Decisões do TSE
Ao comentar decisões recentes da Justiça Eleitoral, o jornalista criticou a suspensão do canal de WhatsApp “Exército do Lula”, determinada pelo ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) Kassio Nunes Marques e posteriormente revertida. Segundo Chade, a queixa que motivou a decisão não veio acompanhada do anexo com as supostas desinformações, e a medida foi revista após análise técnica.
Ao abordar possíveis mudanças na Constituição, Chade questionou as consequências de alterações que possam afetar as garantias democráticas. “Uma vez que você abre essa caixa de Pandora, como é que você faz para fechar?”, perguntou. Para o jornalista, existe o risco de que um governo eleito utilize o poder para desmontar a democracia e retirar direitos fundamentais conquistados nas últimas quatro décadas.

