Fake news são, acima de tudo, uma estratégia para provocar reação; diz mestre em História Social

“As fake news são, acima de tudo, uma estratégia para provocar reação”, é o que acredita o professor e mestre em história social, Joel Nolasco. Em entrevista ao Jornal da Cidade desta segunda (12), o especialista associou à fala às acusações de que o canal no WhatsApp “Exército do Lula” estaria disseminando notícias falsas.  

A respeito disso, o professor utiliza de exemplo a percepção coletiva de que o atual candidato à Presidência Luiz Inácio Lula da Silva (PT) seria corrupto: “Há quantos anos se ouve que Lula é ladrão? Mas em qual das investigações, inclusive conduzidas por entidades externas, se construiu uma documentação robusta capaz de comprovar a acusação e levá-lo à cadeia? Nenhuma”, explicou. 
Apesar disso, ele afirma que o bombardeio sucessivo dessas informações, ainda que sendo meias-verdades, consolida a imagem de político corrupto, que é dificilmente desconstruída da cabeça da população. 

Para Nolasco, não é necessário usar elementos muito elaborados. Ao comentar um caso recente envolvendo a revista Veja, ele relembrou o sequestro do empresário Abílio Diniz em dezembro de 1989, durante o segundo turno das eleições presidenciais. A disputa era entre Lula e Fernando Collor. Na ocasião, a publicação exibiu um dos sequestradores usando, por acaso, uma camisa do Partido dos Trabalhadores. O professor questiona: “Qual efeito isso causa nas pessoas? A partir daí, a gente observa que esse tipo de estratégia se vale de recursos aparentemente muito simples”. 

Sobre as estratégias digitais que ambos os lados empregam, para o entrevistado, é hoje muito mais fácil construir um político influenciador digital de extrema direita do que de extrema esquerda. Ele afirmou que a direita se vale de elementos de que a esquerda não dispõe, e que a esquerda passa ainda por um processo de renovação muito lento, se é que se renova. 

A quantidade de abstenções foi outro tópico destacado para Nolasco. Para ele, quanto mais “suja” é a eleição, mais pessoas deixam de votar: “Quanto mais fake news, quanto maior o discurso de ódio, quanto mais polarização, mais as pessoas são desencorajadas de votar”, afirmou. No entanto, ressaltou que o fenômeno não é novo: “Nenhum dos elementos que levam à abstenção surgiu agora, mas neste ano todos eles cresceram exponencialmente”, analisou. 

Ainda sobre polarização, na avaliação do professor, é fácil diferenciar um governo totalitário de um democrático. No democrático, o poder vem de baixo para cima, com ampla participação política, e o indivíduo é um cidadão, o que exige conhecer as regras. Já no totalitário, o poder vem de cima para baixo, e a participação política, quando estimulada, é doutrinada e violenta. Porém definir direita e esquerda, defendeu, é muito mais difícil, principalmente ao analisar os partidos brasileiros. 

Ainda assim, Nolasco apresentou uma classificação para o campo da direita, em progressista, conservadora e reacionária: 

Direita progressista (centro-direita): direita reformista, que respeita minimamente os direitos do homem e do cidadão.

Direita conservadora: está no poder e quer se manter nele. Nesse campo, o mercado é o mais importante, e, se o Estado se dedicar demais a políticas sociais, impedirá que a meritocracia e a “seleção natural” da economia aconteçam.

Direita reacionária: não basta se manter no poder: é preciso destruir o outro lado. Não é formada apenas pela grande elite, e o maior feito dessa vertente é fazer com que a camada média defenda o que ela defende.

Confira a entrevista na íntegra: