Da “preguiça baiana” ao “câncer do Brasil”: casos de xenofobia contra baianos se repetem no país

Casos recentes de ataques e declarações preconceituosas contra baianos voltaram a chamar atenção e reacenderam um debate antigo sobre a discriminação sofrida por nordestinos. As manifestações aparecem em diferentes contextos, da política às redes sociais, passando pelo futebol, pelo ambiente de trabalho e até por instituições públicas.

Ataques contra trabalhadores baianos

Em 2023, o vereador de Caxias do Sul (RS) Sandro Fantinel foi alvo de forte repercussão após atacar trabalhadores, a maioria baianos, resgatados de condições análogas à escravidão em vinícolas da Serra Gaúcha. Durante discurso na Câmara Municipal, ele afirmou que os empresários deveriam contratar argentinos em vez de trabalhadores “daquela gente lá de cima” e disse que a única cultura dos baianos seria “viver na praia tocando tambor”.

“Mata os baianos”

Na mesma ocasião, um trabalhador resgatado relatou ter ouvido, durante as agressões sofridas no Rio Grande do Sul, a frase “mata os baianos”. O episódio gerou investigações e ampla reação de entidades de defesa dos direitos humanos e de autoridades baianas.

Preconceito dentro de empresa

A discriminação também já apareceu no ambiente corporativo. Em 2018, a empresa Bematech foi condenada pela Justiça do Trabalho a pagar R$ 300 mil por danos morais coletivos após denúncias de práticas discriminatórias contra trabalhadores baianos.
Entre as expressões usadas por gestores estavam “baiano lerdo” e referências aos baianos como preguiçosos.

Xenofobia também aparece no futebol

No futebol, os episódios são recorrentes. Em 2023, jogadores do time sub-14 do Bahia foram alvo de racismo e xenofobia durante uma partida em Juatuba, Minas Gerais. Segundo relatos, integrantes da equipe ouviram imitações de macaco e a expressão “baiano desgraçado”.

“Volta pra Bahia, terra de índio”

Em 2022, o funcionário do Bahia Bruno Queiroz também relatou ter sido vítima de ataques durante uma partida no Paraná.
Entre as expressões utilizadas estavam “baiano devagar”, “macumbeiro”, “volta pra sua rede” e “volta pra Bahia, terra de índio”.

“Baianagem” vira xingamento

Em 2024, um torcedor do Athletico Paranaense usou a expressão “baianagem” para classificar uma falha da defesa durante uma partida contra o Bahia. A publicação foi criticada nas redes sociais e acusada de reproduzir um estereótipo depreciativo associado aos baianos.

Torcedores são atacados na Vila Belmiro

Já em 2025, torcedores do Bahia foram hostilizados na Vila Belmiro, durante partida contra o Santos. Vídeos registraram torcedores santistas gritando “vão comer acarajé” e “seus macumbeiros” em direção aos baianos.

Até ministro do STJ entra na lista
Outro episódio que provocou reação aconteceu no Superior Tribunal de Justiça. O ministro João Otávio de Noronha fez uma piada sobre a suposta falta de agilidade dos baianos, dizendo que, se um baiano arremessasse uma bola na sexta-feira, ela só cairia no sábado. O governador Jerônimo Rodrigues classificou o comentário como “xenofobia pura”. O ministro negou a intenção xenofóbica e afirmou que “maldade está em quem ouve”.

“Voz de baiano preguiçoso”

Em 2025, o então secretário de Mobilidade de Salvador, Fabrizzio Müller, também relatou ter sido vítima de uma tentativa de golpe virtual acompanhada de comentários preconceituosos. Em uma das mensagens, os criminosos fizeram referência à “voz de baiano preguiçoso”.
Influenciadora chama baianos de preguiçosos As redes sociais também são palco frequente de manifestações contra baianos.

Em 2024, a influenciadora Monique Gomes, do Pará, publicou vídeos em Salvador nos quais chamou baianos de “preguiçosos” ao reclamar de um serviço e fez comentários depreciativos sobre a cidade. Após a repercussão negativa, ela se desculpou.

Ataques após resultado das eleições

Em 2022, a advogada baiana Geisa Freire Barbosa publicou ataques contra nordestinos após o resultado do primeiro turno das eleições.
Entre as declarações, afirmou que “o Nordeste tem que se lascar” e que “a Bahia também tem que se lascar”. A Defensoria Pública do Estado da Bahia entrou com uma ação contra ela.

“Nordestino não é gente”

A associação entre nordestinos e falta de inteligência ou capacidade também aparece em episódios políticos. Em 2010, a estudante Mayara Petruso publicou nas redes sociais a frase “Nordestino não é gente. Faça um favor a São Paulo: mate um nordestino afogado”, após a eleição de Dilma Rousseff. Ela acabou condenada pela Justiça por discriminação e preconceito.

“Campos de concentração para baianos”

Em 2018, durante a eleição presidencial, manifestações semelhantes voltaram a aparecer nas redes sociais depois de o Nordeste registrar forte votação em Fernando Haddad. Naquele período, circularam mensagens como “campos de concentração para baianos”, além de diversas publicações com ataques generalizados aos nordestinos.

Piada sobre “freio de mão puxado”
O então candidato Jair Bolsonaro também foi criticado, naquele ano, após divulgar um vídeo em que fazia uma piada dizendo que “carro na Bahia já vem com freio de mão puxado”. A declaração foi interpretada por críticos como reprodução do estereótipo de que baianos seriam preguiçosos.

A “preguiça baiana” na televisão

Até situações aparentemente banais acabam reproduzindo o mesmo imaginário.
Em 2019, o repórter Tiago Scheuer foi criticado após utilizar a expressão “domingo de preguiça” ao falar sobre o tempo na Bahia durante o Jornal Nacional.Embora tenha afirmado que a expressão não tinha intenção preconceituosa e fosse utilizada em outras regiões, o comentário gerou reação de baianos nas redes sociais.

“Pangaré baiano” em reality show

Mais recentemente, durante a edição de 2026 de A Fazenda, o ator Serginho também foi acusado de xenofobia após utilizar a expressão “pangaré baiano” e dizer “volta pra Bahia pra dançar na Bahia”. Ele negou a intenção preconceituosa e afirmou ter familiares de Pernambuco.

Delegada é acusada de xenofobia

Um dos casos mais recentes envolve a delegada da Polícia Civil da Bahia. Prints de uma conversa privada da delegada com declarações xenofóbicas contra nordestinos. Entre as mensagens atribuídas está a afirmação de que Lula “só ganha no Nordeste de analfabetos e pobres”, além de um questionamento sobre o ingresso da defensora na Defensoria Pública da União por meio de cotas. Fernanda classificou o conteúdo como xenofobia e cobrou providências do Ministério Público da Bahia. O caso teria chegado à Corregedoria da Polícia Civil.

Como se trata de uma denúncia baseada em prints divulgados por uma das participantes da conversa e de uma apuração em andamento, as declarações devem ser tratadas como conteúdo atribuído à delegada, e não como fato já comprovado.

Bahia chamada de “câncer do Brasil”

Outro episódio recente envolveu o comentarista Rodrigo Constantino. Após o primeiro turno das eleições de 2026, ele publicou um vídeo em que chamou a Bahia de “câncer do Brasil” e Salvador de “lixo”. Constantino também fez comentários generalizados sobre os baianos e questionou a disposição da população para o trabalho. A Polícia Civil da Bahia instaurou procedimento para apurar as declarações.