Sem bets, dinheiro vai voltar para o bolso das famílias, projetam economistas

O dinheiro que hoje é destinado às apostas esportivas e cassinos online pode ganhar outro destino com a proibição das bets implementada pelo governo Lula a partir de Medida Provisória assinada ana última quinta-feira: o próprio orçamento das famílias. Economistas ouvidos recentemente apela imprensa avaliam que parte desses recursos pode voltar a circular no comércio e ser usada para despesas básicas, compra de alimentos, pagamento de dívidas, poupança e investimentos. A avaliação ganha peso diante do avanço das apostas entre consumidores de menor renda.

Para o economista Cícero Pimenteira, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), com os recursos que hoje são perdidos nas bets de volta às famílias, poderiam ser direcionados para consumo, supermercados, medicamentos, bens e serviços, além de poupança e investimentos. Segundo Pimenteira, esse dinheiro teria um efeito econômico mais amplo quando utilizado nessas atividades.

A dimensão do fenômeno ajuda a explicar a preocupação. Segundo estimativa citada por Pimenteira, os brasileiros transferiram cerca de R$ 62,5 bilhões para as bets em 2025, considerando a diferença entre o dinheiro apostado e o que retornou aos jogadores. É uma parcela expressiva da renda que deixa de ser utilizada em outras despesas e que, em muitos casos, não se transforma em patrimônio para as famílias.

O impacto já aparece no consumo. Dados citados pela economista Carla Beni, da Fundação Getúlio Vargas, mostram que 23% dos apostadores reduziram gastos com roupas e 19% diminuíram despesas em supermercados para manter o hábito de apostar. A lógica é direta: quando parte da renda é direcionada às plataformas, sobra menos para o comércio tradicional e para despesas domésticas.

Varejo deve recuperar recursos, avalia CNC
Para Fábio Bentes, economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC), as apostas também passaram a disputar recursos que poderiam ser utilizados para quitar dívidas ou manter as famílias abastecidas. A entidade estima que as bets retiraram R$ 143,8 bilhões das vendas do varejo em dois anos, reforçando a avaliação de que o fenômeno não se limita ao entretenimento e produz efeitos sobre a economia real.

Isso não significa, porém, que todo o dinheiro que deixará de ser apostado voltaria automáticamente para supermercados ou lojas. Parte poderia ser direcionada a outras formas de entretenimento ou simplesmente deixar de circular, voltado à poupança ou investimentos. 

Ainda assim, a avaliação dos economistas é a de que a redução das apostas abrirá espaço para a redistribuição da renda disponível hoje para as famílias, especialmente entre as de menor poder aquisitivo. Ou seja, transformará dinheiro hoje consumido nas bets em recursos potencialmente destinados ao consumo, à redução do endividamento ou à formação de reservas.