Matéria originalmente publicada no Jornal Metropole em 24 de setembro de 2026
Até o início do século 19, a forma habitual de um morador de Salvador enterrar seus mortos era dentro das igrejas católicas ou em suas áreas anexas, à moda portuguesa. Para aqueles que não pertenciam ao eixo Portugal-Brasil e não professavam a mesma fé, porém, havia um problema incômodo em uma sociedade oficialmente ligada ao catolicismo: onde sepultá-los?
A resposta está espalhada em três endereços da cidade: Ladeira da Barra, Federação e Quinta dos Lázaros. Ali nasceram, em épocas distintas e por mãos diferentes, os cemitérios dos Ingleses, dos Estrangeiros e o Israelita da Bahia, que formam um mapa silencioso da imigração baiana.
Exceção do rei
Tudo começa em 1808, quando a corte portuguesa desembarca no Brasil escoltada por navios da Marinha Real britânica, fugindo de Napoleão Bonaparte. A aliança com a Inglaterra, reforçada por tratados comerciais, trouxe um efeito colateral pouco lembrado: protestantes passaram a ter liberdade de culto privado em solo brasileiro. Faltava, porém, onde enterrar os seus.
Em 8 de fevereiro de 1811, o Conde dos Arcos, que governava a Bahia, autorizou a criação do Cemitério dos Ingleses, destinado aos cidadãos britânicos, numa área que pertencia à Igreja de Santo Antônio da Barra. O primeiro sepultamento aconteceu em 1813.
Lugar na história
Atualmente, o espaço é administrado pela Associação da Igreja de São Jorge e Cemitério Britânico, organização sem fins lucrativos formada por membros da comunidade inglesa e voluntários residentes na Bahia. Pelo peso histórico, o Cemitério dos Ingleses virou marco e ponto de visitação.
As lápides guardam nomes conhecidos, como o médico escocês John Ligertwood Paterson, um dos fundadores da Escola Tropicalista Baiana, e o empresário Edward Pellew Wilson, que deu origem à companhia Wilson & Sons. Ali também foram sepultados, em 1832, dois tripulantes do Beagle, navio de Charles Darwin, embora seja sem fundamento a lenda de que o próprio naturalista teria parentes enterrados no local.
Endereço para quem não tinha onde ir
O cemitério inglês nunca foi exclusivamente inglês. Enquanto durou a proibição de sepultar não católicos em solo consagrado, luteranos, alemães e até judeus baianos encontraram ali a última morada. Essa convivência durou até 1851, quando alemães e suíços criaram seu próprio cemitério. Para os judeus, só terminou de vez em 1937.
Em meados do século 19, as colônias alemã e suíça em Salvador viviam principalmente do comércio, do fumo e do açúcar. A convivência com os baianos católicos era, segundo pesquisadores, ainda mais hostil que a vivida pelos britânicos. A solução veio em 1851, com a fundação de uma necrópole própria na Federação, em frente ao tradicional Campo Santo, que recebeu o nome de Cemitério dos Estrangeiros.
Descanso eterno dos judeus em Salvador
A comunidade judaica seguiu outro caminho. Sem terreno próprio, os judeus baianos usavam havia décadas uma ala reservada no nível inferior do Cemitério dos Ingleses. A situação mudou em 1937, quando a prefeitura decidiu abrir um acesso ao Iate Clube da Bahia pela lateral do Forte São Diogo e a desapropriação atingiu a área onde estava sepultada parte dos judeus da cidade.
A mudança acelerou uma negociação que a comunidade judaica já buscava havia anos. Uma comissão liderada por nomes como Isaac Uderman e Salomão Adler conseguiu, junto ao interventor de Getúlio Vargas na Bahia, Juracy Magalhães, a doação de um terreno na Quinta dos Lázaros. Ali nasceu o Cemitério Israelita da Bahia, com o primeiro sepultamento, o de Jacob Palatnick, em setembro daquele ano.
O terreno escolhido é ladeirado. Todo o complexo de cemitérios da Quinta dos Lázaros foi erguido a partir de 1850, depois de uma epidemia de cólera, seguindo conceitos sanitaristas que recomendavam necrópoles em terrenos elevados, longe das áreas residenciais e do lençol freático.
Rubin Muller assumiu o traslado das ossadas e administrou o cemitério por quase 40 anos, até morrer em 1975. A praça em frente ao portão leva seu nome, reconhecimento para quem passou a vida cuidando do lugar de descanso dos outros, com sepultamentos seguindo a tradição judaica.
Visitas e sepultamentos
Atualmente, os três espaços estão abertos a quem deseja visitá-los. O dos Ingleses, na encosta da Barra, tombado desde 1993, atua como um museu a céu aberto e guarda acervos históricos valiosos — para entrar, basta tocar o sino do portão. Por ter sua capacidade esgotada, é o único dos três que não realiza mais sepultamentos. Já o da Federação e o Israelita, que abriga também um memorial do Holocausto, seguem em atividade com seus ritos e enterros regulares.

