O fato mais significativo do editorial publicado pelo Estadão com críticas a Flávio Bolsonaro (PL) por suas ligações com milicianos talvez esteja menos no que o jornal diz do que em quem decidiu dizê-lo. Um dos mais tradicionais veículos da direita conservadora do país afirma que a eleição do senador pode representar o risco de “ascensão das milícias ao topo do poder da República”. Diz mais: quem está disposto a votar nele deve saber o perigo que corre.
É uma conclusão politicamente incômoda para o campo da direita, sobretudo porque parte de um jornal que não costuma ser identificado com a oposição ao bolsonarismo. Ao colocar as relações de Flávio Bolsonaro com personagens ligados às milícias no centro do debate presidencial, o Estadão introduz uma questão que pode ultrapassar a habitual divisão entre esquerda e direita.
Há um detalhe interessante no posicionamento do Estadão. O editorial não está apenas dizendo que o “filho 01” do ex-presidente Jair Bolsonaro possui relações controversas com milicianos. Vai além. Coloca uma pergunta dura para o eleitorado de direita: o que significaria ter na Presidência um político cuja trajetória reúne episódios documentados de proximidade política com personagens de proa no crime organizado?
O texto também não se limita a registrar fatos. Destaca de maneira explícita que a ligação entre Flávio Bolsonaro e milicianos em posição de liderança não são desvio pontuais. Em especial, por reunir episódios concretos dos laços do senador com tais organizações criminosas. O que inclui emenda parlamentar a pedido de condenado pela execução da então vereadora Marielle Franco, discurso elogiando milícias como “novo tipo de policiamento”, homenagem a chefão do Escritório do Crime e empregos para parentes dele em seu próprio gabinete.
Vindo de um jornal declaradamente direitista, o desfecho do editorial do estado é um soco no estômago de parte da sociedade capaz de votar em alguém com o cordão umbilical ligado aos milicianos apenas por não suportar o presidente Lula: “Cada eleitor tem a liberdade assegurada pela Constituição para dar seu voto a qualquer candidato regularmente registrado na Justiça Eleitoral. Mas que todos estejam cientes de que, dado o histórico, a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro embute o risco da ascensão das milícias ao topo do poder da República”. Mais claro, impossível!

