Paraíso em disputa: projetos ligados à família Trump incendeiam a revolta na Albânia

Durante décadas, a Albânia vendeu ao mundo a imagem de um dos últimos paraísos intocados da Europa. Praias de águas cristalinas, enseadas preservadas e uma costa que passou a ser chamada de “Maldivas da Europa” atraíram turistas em busca de um Mediterrâneo ainda distante do turismo de massa. Mas bastou um projeto bilionário ligado à família do presidente norte-americano Donald Trump para transformar o cartão-postal em palco da maior onda de revolta popular do país desde o fim do regime comunista, há cerca de 35 anos.

Batizado pelos próprios manifestantes de “Revolução dos Flamingos”, o movimento começou como um protesto ambiental e rapidamente ganhou outra dimensão. Hoje, reúne milhares de pessoas em marchas quase diárias, invasões de canteiros de obras, destruição de cercas erguidas por empresários e palavras de ordem contra a elite política que governa o país, enquanto transforma praias públicas em propriedades privadas.

Semente da rebelião

A origem da crise remonta a uma viagem feita à costa albanesa pela filha do presidente dos EUA, Ivanka Trump, e o marido, Jared Kushner, no verão de 2021. Encantados com a Ilha de Sazan, uma antiga base militar localizada entre os mares Adriático e Jônico, o casal anunciou anos depois um projeto estimado em cerca de US$ 4 bilhões – aproximadamente R$ 22 bilhões, na cotação atual – para transformar a região em um resort de luxo para milionários. 

O empreendimento prevê hotéis exclusivos, mansões, marina, cassino, campo de golfe e infraestrutura voltada ao turismo de alto padrão. Em entrevistas à imprensa internacional, Ivanka afirmou que o casal pretendia “ajudar a concretizar o potencial” daquele lugar. Para parte da população albanesa, porém, o discurso feito durante o retorno do casal à Albânia em janeiro deste ano soou menos como desenvolvimento e mais como venda de um patrimônio nacional.

Novo estopim

Se o resort previsto para a Ilha de Sazan já despertava desconfiança, um segundo empreendimento ligado ao grupo do genro de Trump atirou mais combustível na fogueira e elevou ainda mais o tom da reação contrária. O novo projeto de Jared Kushner prevê a construção de um complexo turístico de luxo na região da Lagoa de Narta, próximo a uma área protegida que abriga diversas espécies de aves migratórias, pelicanos e flamingos. Daí veio o nome da revolta.

Ambientalistas locais alertaram que o projeto ameaçava um dos ecossistemas mais importantes dos Bálcãs. Ao mesmo tempo, organizações locais acusaram o governo do primeiro-ministro Edi Rama de flexibilizar licenças ambientais e acelerar a burocracia para favorecer investidores estrangeiros. A combinação entre preservação ambiental, interesses privados e decisões políticas foi suficiente para transformar uma disputa local em causa nacional.

“A Albânia não está à venda”

As primeiras manifestações reuniram moradores, pescadores, estudantes e ambientalistas. Os protestos tinham um alvo claro: impedir a construção do resort. Cartazes com frases como “A Albânia não está à venda” passaram a dominar as ruas da capital, Tirana, e de outras cidades.

Mas, à medida em que os dias avançavam, as reivindicações deixaram de tratar apenas do empreendimento. Os protestos passaram a denunciar corrupção, concentração de terras, favorecimento de empresários ligados ao governo e o avanço de oligarcas sobre áreas públicas. A revolta ambiental havia se transformado em uma contestação ao próprio modelo político do país.

Reuters/ Folhapress

Retomada das praias

Nas últimas semanas, os protestos ultrapassaram os atos simbólicos. Na Praia de Kakome, uma das mais conhecidas do sul da Albânia, milhares de manifestantes derrubaram guaritas, muros e cercas de arame farpado instalados ainda em 2004 para impedir o acesso da população.

As estruturas pertenciam a um empresário local que mantinha a área praticamente privatizada. Enquanto avançavam sobre as cercas, os manifestantes gritavam: “Kakome é nossa terra. Vamos defendê-la com sangue”.

Flamingos viram símbolo e nome da revolta

O nome “Revolução dos Flamingos” nasceu justamente da preocupação com a Lagoa de Narta. A ave, conhecida pela beleza, virou símbolo de uma mobilização que, embora tenha começado em defesa do meio ambiente, hoje representa algo muito maior.

Para muitos albaneses, proteger os flamingos passou a significar proteger também praias, reservas naturais e o direito da população de acessar áreas que, segundo eles, estão sendo entregues a investidores milionários.

Diante da pressão crescente, o primeiro-ministro EdiRama rejeitou as acusações. Segundo ele, o resort não provocará impactos significativos ao meio ambiente e não haverá, nas palavras do próprio premiê, “concreto sendo derramado sobre a cabeça dos flamingos”.

Rama também negou que Ivanka Trump e Jared Kushner tenham recebido tratamento diferenciado, afirmando que fazem parte de um grupo maior de investidores estrangeiros interessados na Albânia. Organizações ambientais, porém, contestam essa versão. A Proteção e Preservação do Meio Ambiente Natural na Albânia (PPNEA) afirma que parte dos danos ecológicos já pode ser considerada grave e, em alguns casos, irreversível.