Primeira eleição direta para reitor da Ufba é marcada por tretas entre candidatos

Matéria originalmente publicada no Jornal Metropole 

A eleição que levou o professor João Carlos Salles de volta à Reitoria da Universidade Federal da Bahia (Ufba) entrou para a história da instituição por um motivo duplo: foi a primeira disputa realizada sem a lista tríplice, na qual o mais votado é o vencedor, se tornou a campanha mais acirrada já vista na federal baiana.

A vitória da chapa “Somos Ufba”, formada por Salles e pela professora Jamile Borges, consolidou na instituição um novo modelo de escolha para o posto de reitor, baseado no voto direto da comunidade acadêmica. Pela nova legislação em vigor desde março deste ano, a escolha passou a ser automaticamente homologada pelo presidente da República, sem formação da antiga lista com os três nomes mais votados.

O novo formato, celebrado por setores da universidade como avanço democrático, talvez explique por que a campanha foi marcada por conflitos, ações judiciais, acusações públicas, debates tensos e questionamentos sobre a condução do processo eleitoral.

Crise interna

Embora a vitória de Salles tenha consolidado o retorno de um nome já conhecido pela comunidade acadêmica, a campanha esteve longe de ser pacífica. O ambiente de disputa começou a esquentar ainda nas primeiras semanas, com troca de acusações entre candidatos, críticas públicas à condução do processo eleitoral e judicialização de decisões administrativas.

Ao longo dos debates promovidos, o tom frequentemente ultrapassou o campo das propostas e descambou para ataques de cunho pessoal, sem qualquer relação com a gestão da universidade. 

A tensão também atingiu diretamente a administração da Ufba. No início de maio, uma decisão da Justiça Federal determinou a retirada de uma nota institucional publicada nos canais oficiais da universidade, após ação movida por Penildon Filho, atual vice-reitor e candidato ao cargo mais alto. O entendimento foi de que o conteúdo, com críticas a ele, poderia comprometer a neutralidade institucional durante o processo eleitoral.

Chuva de denúncias

Logo nas primeiras horas do pleito, estudantes, professores e técnicos apontaram atrasos na entrega de urnas em diferentes unidades da instituição. Em alguns casos, segundo relatos apresentados à comissão eleitoral da universidade, os equipamentos só chegaram após as 11h, embora a votação tivesse início previsto para 8h.

As chapas lideradas por Fernando Conceição e Salete Maria divulgaram uma nota conjunta, criticando a organização do processo e acusando a comissão eleitoral de descumprir regras aprovadas pelo Conselho Universitário, mesmo sem provas.

Outro foco de conflito envolveu a prática de boca de urna. A Justiça Federal chegou a determinar a proibição de abordagens eleitorais em toda a extensão dos campi da Ufba durante a votação. A medida contrariava entendimento anterior da comissão eleitoral, que limitava a restrição apenas às proximidades das mesas de votação.

Pouco depois, no entanto, a decisão foi derrubada pelo desembargador federal João Carlos Meyer Soares, sob argumento de que o Judiciário estaria interferindo indevidamente na autonomia universitária, ao alterar critérios definidos pela própria universidade para condução do pleito.

Retorno de Salles marca novo ciclo na Ufba

Apesar do ambiente de conflito, a vitória de João Carlos Salles consolida o retorno de uma das figuras mais influentes da história recente da Ufba. Professor titular da universidade e ex-presidente da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), Salles comandou a Ufba entre 2014 e 2022, período atravessado por sucessivos cortes orçamentários, contingenciamentos federais e críticas à redução de financiamento do ensino superior público.

Segundo ele, voltar à Reitoria não era um plano inicialmente previsto. A candidatura, afirmou Salles, nasceu de articulações coletivas iniciadas ainda no ano passado. Ao longo de quatro meses, grupos ligados à universidade participaram da construção do programa de gestão que deu origem à chapa “Somos Ufba”. “É uma história coletiva”, afirmou o futuro reitor, em entrevista à Rádio Metropole, na última segunda-feira (25). 

Jamile Borges, professora da Faculdade de Educação e diretora do Centro de Estudos Afro-Orientais (Ceao), classificou a eleição como “um dos momentos mais importantes da história das universidades brasileiras”. A escolha de Jamile para vice-reitora foi apresentada como uma decisão construída a partir de afinidade política e confiança institucional.  “Nosso compromisso é com a recuperação da confiança da comunidade na sua universidade”, disse a vice eleita. 

Desafios da nova gestão

Ao retornar ao comando da Ufba, João Carlos Salles afirma que a nova gestão terá como principais desafios a defesa da universidade pública, o fortalecimento da autonomia universitária e a ampliação do diálogo interno dentro da instituição. Segundo o reitor eleito, a universidade precisa reforçar suas instâncias democráticas e ampliar os espaços de participação da comunidade acadêmica nas decisões institucionais. 

“Autonomia não é uma palavra vazia. A universidade só garante sua autonomia quando fortalece a democracia das suas instâncias”, afirmou. Salles também defendeu o fortalecimento dos órgãos colegiados da instituição e criticou a recorrente judicialização de conflitos internos.

O reitor eleito também afirmou que a defesa das universidades públicas deve ocupar papel central no debate nacional. “A sociedade precisa aceitar que as universidades são necessárias a todo projeto democrático”, completou.

Resultado da votação

A eleição na Ufba é decidida por um escore que resulta da média ponderada de votos de três categorias: estudantes, professores e servidores técnicos-administrativos

João Carlos Salles – 4.423,03

Penildon Filho – 2.241,90

Salete Maria – 206,06

Fernando Conceição – 121,80