Marcelo Veras analisa novo romance de Waldomiro Silva Filho sobre memória e tragédia

O professor, filósofo e escritor Waldomiro José Silva Filho lançou o romance “Os Dias”, obra que atravessa memórias de violência, exílio, ditadura e reconstrução histórica a partir de um personagem que percorre as ruas de Salvador e da cidade alemã de Colônia. Em entrevista ao Jornal da Bahia no Ar nesta quarta-feira (27), o autor afirmou que o livro nasceu de inquietações pessoais e filosóficas acumuladas ao longo de muitos anos, sobretudo sobre como seguir vivendo após experiências marcadas pela tragédia e pela crueldade.

Segundo Waldomiro, a ideia da narrativa ganhou força durante o período em que atuou como professor visitante na Universidade de Colônia, na Alemanha. Ele contou que ficou profundamente impactado ao perceber que a cidade, hoje reconstruída e considerada bela, havia sido completamente destruída pelos bombardeios da Segunda Guerra Mundial. “Isso me mobilizou muito”, afirmou. Para o escritor, transformar essas reflexões em literatura foi uma necessidade íntima diante de temas que, segundo ele, não conseguia abordar de outra maneira. “Migrar para uma obra literária foi quase uma exigência pessoal para enfrentar uma coisa que de outro modo eu não poderia falar”, declarou.

A obra acompanha um personagem marcado pela perda da família durante a Ditadura Militar brasileira e por um exílio na Europa. Em meio às caminhadas entre Brasil e Alemanha, ele revisita lembranças traumáticas, enfrenta a violência da memória e tenta lidar com a tensão entre recordar e esquecer. O romance também estabelece conexões entre acontecimentos históricos, como o processo de reconstrução de Colônia após a guerra e os impasses da redemocratização brasileira nas últimas décadas.

Durante a entrevista, o psicanalista, psiquiatra e escritor Marcelo Veras analisou a dimensão literária do livro e afirmou que “Os Dias” representa um movimento de ruptura do autor com os limites da filosofia acadêmica. Segundo ele, Waldomiro teria percebido que algumas experiências humanas exigem outra forma de linguagem. “A filosofia vai até um limite”, afirmou Veras, ao destacar que o escritor passou anos “escondido” atrás da posição de professor e decidiu assumir definitivamente a literatura como espaço de criação pessoal e expressão artística.

Confira entrevista na íntegra: