Milton Hatoum destaca origem amazônica e imigração libanesa na formação literária

A formação literária atravessada pela origem amazônica e por heranças culturais do Oriente marca a obra de Milton Hatoum. Em entrevista ao Jornal da Metropole no Ar, nesta segunda-feira (4), o autor destacou o peso da infância em Manaus e da convivência com imigrantes na construção de sua escrita, apontando a cidade como um espaço de encontro entre culturas que moldaram sua visão de mundo.

“Esse pequeno Líbano manauara foi importante na minha formação. Porque a infância e a primeira juventude são decisivas para quem escreve. São decisivas para qualquer pessoa, não é? Então, enfim, todo aquele ambiente, vamos dizer, de um certo Oriente, Manaus, foi importante. Sobretudo em dois romances: no primeiro, o Relato de um Certo Oriente, e depois no Dois Irmãos”, disse.

Autor de obras como Relato de um Certo Oriente e Dois Irmãos, Hatoum construiu uma narrativa que transita entre memória, identidade e deslocamento. Ao abordar sua trajetória, ele reforça como a experiência familiar — marcada pela imigração libanesa — se mistura à cultura amazonense, resultando em uma literatura que dialoga com diferentes matrizes e revela tensões entre pertencimento e adaptação.

“Mas o meu pai, meus avós, eles foram assimilados pela cultura amazonense, pela vida manauara. Eles não sentiam mais a nostalgia, essa volta à origem. Eles queriam voltar para visitar, mas elegeram uma nova pátria, como muitos imigrantes. Então, vamos dizer, a língua árabe, as canções também, interpretadas por cantoras libanesas e egípcias. A culinária, que é um dado cultural muito forte, que já era uma culinária mestiça, a libanesa amazônica, tudo isso foi muito importante. Os outros romances não têm mais relação com a imigração libanesa, só esses dois primeiros”, completou.

Milton Hatoum destacou que a presença de judeus marroquinos na Amazônia é significativa e também se reflete em sua obra literária. Segundo o autor, essa comunidade aparece em seus romances iniciais e em Órfãos do Eldorado, influenciada pela convivência próxima que teve em Manaus, onde mantinha laços de amizade com famílias marroquinas — realidade também compartilhada por sua mãe, evidenciando a forte presença desse grupo na cidade. 

Confira a entrevista na íntegra: