Matéria publicada originalmente no Jornal Metropole em 9 de abril de 2026
Com o fim da janela partidária, o xadrez político baiano virou um tabuleiro em movimento. Deputados estaduais e federais aproveitaram o período de brecha legal para trocar de legenda sem cometer infidelidade partidária, em uma dança de cadeiras que revela um remanejamento estratégico capaz de redefinir os campos de influência entre a base governista e os blocos de oposição.
Na Bahia, o troca-troca não foi apenas numeroso, mas simbólico. Na prática, o que se viu foi uma reorganização ampla, com partidos médios crescendo, legendas tradicionais cedendo quadros e lideranças históricas mudando de endereço político.
O epicentro dessas mudanças foi a Assembleia Legislativa da Bahia (Alba). A nova composição da Casa escancara o impacto da janela. Cerca de um em cada três deputados estaduais mudaram de legenda durante o período de um mês, encerrado no último dia 4. Ou seja, 21 dos 63 parlamentares entraram na ciranda. O que representa aproximadamente 33% da Alba.
PT e PSD passaram a dividir a liderança, com dez deputados cada. O União Brasil, que antes tinha nove, caiu para oito cadeiras. Já o Avante protagonizou uma das maiores ascensões e, de apenas um, chegou agora a seis integrantes.
PV e PL aparecem com cinco parlamentares cada, enquanto PP e PCdoB ficaram com quatro. Republicanos e PDT têm três deputados. MDB, PSDB e PSB ficaram com duas cadeiras cada. Psol e PRD completam o quadro com um representante.
Siglas no lucro
O Avante foi o caso mais visível de crescimento. A legenda, comandada na Bahia pelo ex-deputado federal Ronaldo Carletto, atraiu nomes como Binho Galinha (ex-PRD), Felipe Duarte (ex-PP), Laerte do Vando (ex-Podemos), Luciano Araújo (ex-Solidariedade), Soane Galvão (ex-PSB) e Vítor Azevedo (ex-PL), consolidando-se como força central na base do governador Jerônimo Rodrigues (PT).
O Republicanos também se fortaleceu ao atrair lideranças de peso. E não só na Alba. No Congresso Nacional e na Câmara de Vereadores de Salvador também. Bem antes da janela, já tinha recebido o senador Angelo Coronel.
No período de troca legal, passou a abrigar ainda os dois filhos do senador, que rompeu com a base do PT e se alinhou à oposição após não conquistar espaço para se candidatar à reeleição pela chapa majoritária governista: o deputado federal Diego Coronel e o estadual Angelo Coronel Filho, todos antes filiados ao PSD.
Também ingressaram no Republicanos, braço político da Igreja Universal, o deputado federal Leo Prates e a vereadora Roberta Caires, até então filiados ao PDT. Além de manter a bancada de três deputados estaduais – já que Samuel Júnior trocou a sigla pelo PL – o partido passou a ter influência ampliada na Bahia e se posiciona agora como peça importante na corrida eleitoral deste ano.
Ciranda no União Brasil, PP, PDT, PSD e PSB
No troca-troca, a bancada do União Brasil na Alba perdeu dois parlamentares, mas ganhou um. Marcelinho Veiga, eleito pelo partido em 2022, migrou para o PP, assim como Emerson Penalva (ex-PDT). Em contrapartida, Cafu Barreto (ex-PSD) se filiou ao União Brasil.
No mesmo diapasão, o PP encolheu mais ainda. Além de Felipe Duarte, deixaram o PP no período da janela Niltinho, agora integrante do PSD, Antônio Henrique Júnior e Eduardo Salles, estes últimos recém-filiados ao PV.
O PDT foi um dos mais atingidos. Fora o deputado federal Leo Prates, o deputado estadual Emerson Penalva e a vereadora Roberta Caires, o partido perdeu ainda outros dois vereadores da capital – Débora Santana e Anderson Ninho. Em movimento contrário, passou a abrigar Pancadinha (ex-Solidariedade) e Raimundinho da JR (ex-PL).
O PSB também perdeu espaço, com as saídas de três deputados estaduais: Fabíola Mansur, que entrou no PV; Soane Galvão, agora no Avante; e Ângelo Almeida, novo quadro da bancada do PT na Alba.
O Podemos é outro partido esvaziado na janela. O deputado estadual Laerte do Vando pulou para o Avante, enquanto o deputado federal Raimundo Costa ingressou no PSD.
Dança das cadeiras na Alba
Mesmo preso, Binho Galinha ponga na janela
Conforme divulgado pela coluna Metropolítica publicada no portal Metro1 em 1° de abril, o deputado estadual Binho Galinha, preso desde outubro do ano passado, havia deixado o PRD após processo de afastamento do parlamentar da legenda e ingressou no Avante. Já que não há condenação, ele mantém o mandato na Assembleia Legislativa da Bahia e pode disputar a reeleição no novo partido.
Apontado pelas investigações como líder de uma organização criminosa com atuação em Feira de Santana, Binho Galinha é acusado de liderar uma milícia envolvida em lavagem de dinheiro para o jogo do bicho, agiotagem, extorsão e receptação de mercadoria roubada, no âmbito das operações El Patrón e Estado Anômico.
Rupturas históricas
No PV, a grande surpresa foi a atração de lideranças de peso do agronegócio, setor tradicionalmente oposto à pauta ambiental defendida pelo partido. É o caso dos deputados estaduais Eduardo Salles e Antônio Henrique Júnior, que antes pertenciam ao PP, sigla com forte base ruralista.
Algumas trocas ultrapassam a lógica eleitoral e têm peso simbólico. A saída da ex-prefeita de Lauro de Freitas Moema Gramacho do PT, após décadas no partido, marca uma ruptura histórica. Moema se filiou ao MDB e encerrou uma longa trajetória na legenda.
Outro caso emblemático é o de Geraldo Simões, ex-prefeito de Itabuna e um dos fundadores do PT na Bahia, que deixou o partido após 46 anos para ingressar no Psol. A intenção, a princípio, é buscar uma candidatura a deputado federal pela nova legenda.
Bahia segue tendência nacional
O cenário baiano acompanha o restante do país. A janela partidária foi marcada por migrações em busca de mais estrutura, facilidade de se eleger, tempo de TV e acesso ao fundo eleitoral. A lógica é nacional: partidos mais competitivos atraem nomes, enquanto siglas menores perdem espaço.
Foram registradas ao menos 120 movimentações entre os 513 deputados federais, durante a janela, cerca de 23% da Câmara. O PL foi o principal destino e consolidou sua posição com uma bancada que já ultrapassa os 100 parlamentares.
O PT, por sua vez, apresentou estabilidade. Apesar da saída simbólica da ex-prefeita de Fortaleza Luizianne Lins, deputada federal pelo Ceará, o partido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva recompôs as baixas com novas adesões e se manteve como a segunda maior bancada, com 67 deputados.
Por outro lado, o União Brasil concentrou as maiores perdas, com a saída de 28 parlamentares. A sigla conseguiu reduzir o impacto ao atrair 21 novos nomes, mas ainda assim encolheu e passou a ter 51 deputados, mantendo a terceira posição na Câmara, em federação com o PP.
O que é janela partidária?
A janela partidária é o período previsto na legislação eleitoral que permite a parlamentares trocarem de partido sem risco de perder o mandato por infidelidade partidária. Fora desse intervalo, a regra geral determina que o cargo pertence à sigla, e não ao eleito, o que pode levar à cassação em caso de mudança de legenda.
O mecanismo foi criado para dar flexibilidade aos políticos, especialmente em anos eleitorais, permitindo a reorganização das bancadas e alianças. A janela de um mês é aberta sempre no início de março e fechada no começo de abril, seis meses antes das eleições, e costuma provocar intensa movimentação.

