Matéria publicada originalmente no Jornal Metropole em 19 de março de 2026
O roteiro costuma ser semelhante. Um jovem surge diante da câmera, encena um pedido de namoro ou de casamento e, diante do “não”, transforma a frustração em espetáculo. Em poucos segundos, socos e chutes são descarregados contra o que simbolizaria uma mulher. Em versões ainda mais dramáticas, a negativa feminina vira pretexto para explosões digitais, cenas de destruição e efeitos de videogame.
A fórmula, repetida à exaustão, integra a trend “caso ela diga não”, que viralizou nas redes e passou a alimentar debates sobre misoginia e banalização da violência. O fenômeno digital ganhou repercussão em meio a episódios recentes de violência real motivada pela recusa feminina, registrados em diferentes estados do país.
O alcance das publicações chegou até mesmo fazer com que a Polícia Federal abrisse um inquérito para apurar possível incentivo à violência de gênero. Entre os materiais criticados esteve uma publicação associada inclusive a um influenciador baiano, Lipe Daily, que reúne cerca de 1,5 milhão de seguidores.
Baiano na mira
No vídeo, ele simula um pedido de casamento rejeitado e, em seguida, surge uma cena de jogo eletrônico na qual um míssil atingiu uma casa. Após a repercussão negativa, o criador retirou o conteúdo do ar e afirmou que a gravação teria sido feita antes da popularização da trend e que estaria fora de contexto.
O debate se intensifica em um cenário de aumento da violência contra mulheres no país. Em 2025, o Brasil registrou 1.518 vítimas de feminicídio, maior número desde a criação da lei que tipifica o crime violento letal e intencional cometido apenas pela vítima ser mulher, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. No ano anterior, já havia sido registrado recorde, com 1.458 casos, aumento de aproximadamente 4%.
Machosfera e influencers
A circulação desse tipo de conteúdo também se conecta ao avanço da chamada “machosfera”, rede de perfis, fóruns e canais voltados ao público masculino, mas do tipo tóxico. Nesses espaços, temas como autoestima e relacionamentos aparecem misturados a discursos que reforçam o antagonismo entre homens e mulheres e estimulam a afirmação masculina por meio de status ou hostilidade.
Parte dessas ideias se aproxima do movimento conhecido como Red Pill, subcultura online que sustenta a visão de que mudanças sociais recentes teriam prejudicado os homens (leia mais no glossário disponibilizado nesta reportagem).
Teia de famosos
No Brasil, influenciadores como Raiam Santos, Thiago Schutz, Breno Faria, Gabriel Breier e Ruyter de Mendonça Poubel reúnem grandes audiências com conteúdos sobre comportamento masculino, dinheiro e vida afetiva. Os vídeos costumam trazer conselhos sobre conquista, críticas ao feminismo, incentivo à busca por sucesso material e defesa de papéis tradicionais de gênero, com forte apelo entre jovens.
Um dos mais famosos, Thiago Schutz, conhecido nas redes como “Calvo da Campari”, chegou até a ser preso sob suspeita de violência doméstica e lesão corporal após denúncia feita por uma ex-namorada.
Algoritmos e circulação nas redes impulsionam violência
Para a professora e pesquisadora Graciela Natansohn, da Universidade Federal da Bahia (Ufba), as tecnologias digitais não criaram a violência, mas ampliaram suas formas e o alcance dela.
Já o também professor e pesquisador da Ufba André Lemos, reconhecido como uma das principais autoridades acadêmicas do país em temas relacionados à comunicação e tecnologia, afirma que a lógica das redes prioriza conteúdos capazes de gerar reação e debate.
O que, aponta Lemos, ajuda a impulsionar publicações polêmicas. “A plataforma expressa os indivíduos e vai potencializar aquilo que nós fazemos. Não existe o indivíduo e a ferramenta de forma separada, existe um híbrido que se constitui nessa ação”, afirma.
Letargia no Congresso
No Congresso Nacional, o tema avança a passos de tartaruga. Um levantamento feito pela Globo News aponta que pelo menos 36 projetos que tratam da misoginia estão em tramitação na Câmara dos Deputados, sendo a maioria de parlamentares mulheres. No Senado, deve ser analisado projeto que criminaliza a misoginia e inclui esse tipo de conduta entre os crimes previstos na Lei do Racismo.
Glossário da misoginia na internet
Machosfera – Expressão usada para designar o conjunto de fóruns online, canais em plataformas de vídeo, grupos em aplicativos de mensagens e perfis em redes sociais que difundem discursos de exaltação de uma masculinidade agressiva, da hostilidade contra mulheres e de oposição a pautas ligadas aos direitos femininos.
Red Pill – Conceito inspirado no filme Matrix, em que o personagem principal toma uma pílula vermelha para enxergar a “verdadeira realidade”. No contexto da machosfera, a expressão é usada por homens que dizem ter “despertado” para a ideia de que mulheres manipulariam ou explorariam os homens, defendendo a retomada de uma posição de domínio masculino e de submissão feminina.
Incels – Abreviação da expressão em inglês “involuntary celibates” (celibatários involuntários). O termo se refere a homens que afirmam, muitas vezes de forma ressentida ou violenta, não conseguir estabelecer relações afetivas ou sexuais e atribuem essa situação às mulheres ou a mudanças sociais.
Chans – Fóruns anônimos na internet que, em diferentes casos, funcionam como ambientes de circulação de conteúdos extremistas, divulgação não autorizada de imagens íntimas e organização de ataques virtuais direcionados a mulheres.

