Entrar na Feira de São Joaquim é, antes de tudo, uma experiência sensorial. Quem passa pela Avenida Jequitaia talvez não imagine o tamanho do território que se abre depois das primeiras barracas. Lá dentro, a maior feira a céu aberto de Salvador parece um outro mundo. É fácil se perder nos corredores. Corredores de tudo: bancas de frutas, panelas de barro, roupas, ervas, peixe fresco, sementes e objetos religiosos. Há música, cheiro de comida, vozes negociando preços e gente de todo tipo. Nesse balaio há também algo menos visível, mas constantemente mencionado por quem trabalha ali: a presença de Exu.
No início de março, essa ligação entre a feira e o orixá foi celebrada de forma explícita durante a Festa de Olojá – o Senhor do Mercado. Neste ano, a celebração, dedicada a Exu, passou a integrar o calendário oficial de eventos de Salvador e reuniu quase cem terreiros de candomblé em São Joaquim. Cortejos, rituais e distribuição gratuita de alimentos marcaram a programação, reforçando uma ideia que muitos feirantes têm: a feira é um dos territórios simbólicos do orixá dos caminhos abertos, do mercado e das trocas.
Rituais de prosperidade
Em São Joaquim, prosperidade não é apenas vender bem no fim do dia. Para muitos feirantes, ela também passa por pequenos rituais que ajudam a abrir caminhos antes mesmo da primeira venda acontecer. Tauan Almeida, de 24 anos, trabalha na loja Rainha do Mar há alguns anos, mas começou a labutar na feira desde os 14 anos, quando ainda conhecia pouco sobre as religiões de matriz africana.
Com o tempo, o trabalho acabou aproximando sua vida da espiritualidade. Hoje, já iniciado no candomblé, ele diz que as duas coisas caminham juntas. Antes de abrir a loja, Tauan tem um gesto simples que repete todos os dias. Ele coloca no bolso direito uma folha de akoko, planta associada à prosperidade e à abertura de caminhos. Quer coisa mais de Exu do que essa?
Tauan Almeida segurando a folha de akoko
Bons caminhos
O gesto faz parte de uma lógica muito presente no cotidiano da feira. Ali, comércio e espiritualidade se misturam de forma natural. Muitos vendedores acreditam que, para que as coisas funcionem na vida material, o lado espiritual também precisa estar em equilíbrio. Tauan conta que, ao longo dos anos, percebeu diferentes energias passando pela loja. Às vezes, clientes chegam carregando problemas que não são apenas financeiros, mas também espirituais.
Segundo ele, algumas dessas pessoas voltam depois para contar que conseguiram resolver seus problemas. Para o vendedor, isso mostra como espiritualidade, fé e comércio caminham juntos naquele espaço. Na visão dele, tudo tem relação com Exu. No candomblé, o orixá é o senhor dos caminhos e das encruzilhadas, responsável pela comunicação entre o mundo espiritual e o mundo material.
“Exu é caminho. Ele é livramento, é proteção. Ele é o mundo em si. Exu é a boca do mundo”, afirma. Na dinâmica da Feira – aonde pessoas chegam, saem, compram, vendem e negociam o tempo todo –, os feirantes veem exatamente essa energia em movimento.
Padilha, guardiã da porta
Na entrada da loja Palácio de Oxóssi, uma imagem chama a atenção de quem passa. Ela se exibe de pele vermelha, seios à mostra, quadris largos e mãos na cintura. É uma estátua da pombagira Padilha, entidade ligada às religiões de matriz africana que, em muitas linhas, está pertinho de Exu.
O dono da loja, Rodrigo Menezes, explica que a presença dela na porta tem um significado importante. Para ele, a entidade protege o espaço, abre caminhos e ajuda a manter a prosperidade do negócio. Todos os dias, antes de começar o trabalho, Rodrigo cuida da Padilha. Ele deixa oferendas e acende uma vela. “É um cuidado diário. A gente precisa alimentar a entidade, cuidar dela”, explica.
Segundo Rodrigo, muitas pessoas também passam pela loja para agradecer os pedidos atendidos. Algumas deixam moedas, bebidas ou flores como forma de gratidão. Para ele, esse tipo de prática faz parte da relação espiritual que muitos feirantes têm com o espaço. “Exu e as entidades são caminho, proteção e prosperidade. Eles ajudam a fazer as coisas acontecerem”, diz.
Onde todos os caminhos da fé se cruzam
Quem frequenta a Feira de São Joaquim costuma dizer que ali se encontra de tudo. Frutas, peixes, ervas medicinais e comidas típicas dividem espaço entre centenas de barracas. Mas, além dos produtos, o lugar também reúne pessoas de origens, histórias e crenças diferentes.
Eliana Freitas, de 55 anos, frequenta a feira há mais de dez anos. Cristã, ela diz que nunca teve problemas em circular pelo espaço, mesmo com a forte presença das religiões de matriz africana. “Aqui tem tudo. Às vezes a gente encontra até o que nem veio procurar”, conta. Eliana costuma comprar alimentos, utensílios domésticos e até sementes usadas em remédios caseiros. Para ela, o mais importante em São Joaquim é o respeito entre as pessoas.
A ideia de que a feira é um espaço aberto para todos também aparece na fala de Lourdes Damasceno, de 71 anos, que frequenta o lugar há cerca de 45 anos e é praticante do candomblé. Segundo ela, a Feira de São Joaquim é um espaço carregado de axé. Para Lourdes, não é apenas Exu que está presente ali. Todos os orixás, de alguma forma, fazem parte da vida espiritual da feira. Mas, dentro dessa lógica religiosa, Exu é o elemento que conecta a todos os outros.
Por isso, muitos religiosos dizem que nada acontece sem que Exu permita primeiro. Na prática, isso significa que, mesmo quando a devoção é dirigida a outros orixás, a comunicação passa por ele. E, poucos lugares em Salvador representam tão bem essa ideia de cruzamento de caminhos quanto a Feira de São Joaquim.
Intolerância presente
Apesar da forte presença das religiões de matriz africanas na Feira de São Joaquim, episódios de intolerância religiosa ainda acontecem. Rodrigo Menezes conta que a estátua de Padilha instalada na porta do seu estabelecimento já foi alvo de vários ataques. Segundo ele, pessoas passam e jogam objetos ou comida estragada perto da imagem. Em outras situações, pregadores religiosos se ousam a entrar na loja para criticar as práticas do candomblé. “Tem gente que passa jogando cebola, tomate, comida podre. Não é oferenda, é maldade”, relata.

