Tudo começou com uma viagem nas férias de 20 dias pela Índia. Luís Martinho e Rosana Lopes deixaram o Carnaval de Salvador para se aventurar no país mais populoso do mundo. Conhecer o Taj Mahal, rituais de renovação de energia no Rio Ganges e explorar e caminhar por Jaipur. Os últimos dias do passeio seriam em Doha, no Catar, onde pegariam o avião de volta para o Brasil. Quase três semanas vivenciando outra cultura, outra gastronomia, outro alfabeto. Era a odisseia dos sonhos. Se não fosse o maior ataque ao Oriente Médio dos últimos 20 anos.
Luís e Rosana saíram de Nova Délhi, capital da Índia, na sexta-feira, 27 de fevereiro. Os planos para passear por Doha no dia seguinte estavam na agenda – o voo de volta para casa só aconteceria na madrugada do dia 29. Entre as prioridades: os estádios da Copa no Qatar em 2022. O sábado amanheceu bonito, sem nenhuma nuvem no céu. O casal pede um carro por aplicativo e parte em direção aos pontos turísticos da cidade. Tudo é fotografável.
Luís e Rosana em Doha horas antes de ataque do Irã (Acervo Pessoal)
Nem o alarme escandaloso no celular do motorista é capaz de distrair os olhares dos visitantes, que não se incomodam com o barulho. O motorista, calmamente, desliga o alarme – quem nunca colocou um despertador para lembrar de alguma coisa? – e segue seu trajeto. A primeira parada, no complexo de Katara – uma espécie de shopping a céu aberto -, um monumento chama a atenção: é a obra “Building Bridges” (Construindo Pontes), do escultor italiano Lorenzo Quinn. A obra é composta por seis pares de mãos gigantes que se unem, representando a união entre os povos.
Sinal de problemas pelo celular
Quando Luís pega o celular para tirar uma foto, um estrondo acontece. Essa explosão, mais distante, é o primeiro indício de que os planos poderiam mudar, mas os baianos ainda não sabiam exatamente como ou quando.
É que a cerca de 1.200 quilômetros dali, em Teerã, a artilharia dos aviões de guerra e dos drones dos Estados Unidos, em ataque coordenado com Israel, despejava sua primeira sequência de bombas sobre a capital iraniana e demais cidades do país, sob a justificativa de varrer do mapa a ameaça nuclear do regime dos aiatolás, algo jamais provado até hoje.
SMS do governo catari dispara alerta sobre ofensiva em Doha (Acervo pessoal)
No islamismo, religião predominante no Catar, há um período conhecido como Ramadã, o mais sagrado mês para os muçulmanos. É quando os praticantes exercem um dos cinco pilares da religião: o jejum, e se abstêm de comida, água, fumo e relações sexuais desde o nascer até o pôr do sol. A data é móvel e, em 2026, começou no dia 17 de fevereiro e segue até 19 de março.
Estranhos no Ninho
O período do Ramadã pede que os muçulmanos fiquem mais reclusos. Portanto, no primeiro estrondo, Luís e Rosana estavam cercados apenas de turistas. Ninguém sabia o que aquela explosão representava. Ninguém correu. Foi ao entrar em uma das poucas lojas abertas na região, que a ficha caiu.
“O Catar está sendo atacado!!!”, gritava uma das funcionárias, já consciente de que o Irã retaliava o ataque disparando pesado sobre cidades de países aliados dos EUA no Golfo Pérsico, entre os quais, Doha, a capital catari, um dos destinos mais visitados na região
Casal relata correria e pânico na capital do catar
A partir dali, relatam Luís Martinho e Rosana Lopes, tudo ficou mais intenso; as interceptações, mais visíveis e mais próximas. As pessoas, assustadas, já corriam pelas ruas, e os mísseis, impávidos, já deixavam rastros de fumaça pelo céu, conta o casal. A preocupação agora era desviar dos destroços e escapar com vida.
Entre os estrondos, um som conhecido dos dois baianos: o mesmo alarme que tocava no celular do motorista. O sinal, na realidade, alertava para uma emergência de segurança nacional emitido pelas autoridades locais, solicitando que todos fossem para um local seguro. Mas o que era seguro naquele momento? Essa indagação os perseguia.
Mal dava para ler as mensagens no celular, de tanto que o corpo tremia, narra o casal. Luís estava apavorado. Ao chegar no hotel, as respostas começaram a surgir: Estados Unidos e Israel realizaram um ataque conjunto ao Irã. Em revide, os iranianos dispararam mísseis contra Israel e atacaram bases americanas no Oriente Médio – a maior delas localizada justamente no Catar.
O espaço aéreo já estava completamente fechado. Apenas aviões militares e helicópteros sobrevoavam o tempo todo. A orientação era uma só: estar sempre com uma mochila próxima e passaportes no bolso para qualquer necessidade.
Regresso indefinido
Mais de uma semana após o início do conflito, Luís e Rosana seguem presos no Catar, sem perspectiva de retorno. De lá pra cá, o alarme de segurança se tornou um amigo íntimo, e o estado de alerta uma constante.
A hospedagem e alimentação estão por conta da companhia aérea, que informou prestar assistência até que a rota para o Brasil seja restabelecida. Na esperança da retomada aconteça em breve, Luís e Rosana vão lidando com as memórias e a saudade que já não cabem mais na bagagem.

