Trend “caso ela diga não”: o que está por trás dos vídeos virais e do discurso de ódio contra mulheres

Recusar um pedido de namoro, um beijo ou qualquer aproximação pode desencadear reações violentas. A realidade, registrada em episódios recentes no país, ganhou novos contornos com a viralização da trend “caso ela diga não”, que circula nas redes sociais com simulações de agressões contra mulheres. O fenômeno digital se conecta a um ambiente mais amplo de disseminação de discursos misóginos e de fortalecimento de comunidades online que propagam ressentimento contra o avanço de direitos femininos.

Violência após a recusa

A discussão acontece em meio a diversos ataques registrados em diferentes estados. No Rio de Janeiro, Alana Anísio Rosa, de 20 anos, foi esfaqueada mais de 30 vezes após recusar um pedido de namoro. Em Pernambuco, a auxiliar administrativa Mariele Vitória Alves de Lima, de 21, foi ferida com golpes de faca e teve o corpo parcialmente queimado dentro do local de trabalho, também após rejeitar um relacionamento. Em Curitiba, uma recepcionista de 55 anos foi espancada por um hóspede depois de se recusar a beijá-lo.

Os casos, embora distintos, têm em comum a violência motivada pela negativa feminina. Eles estão no pano de fundo da repercussão de conteúdos que simulam reações agressivas à rejeição, e se tornaram centrais no debate público sobre misoginia, cultura digital e movimentos como o Redpill.

O que é a trend “caso ela diga não”

Os vídeos que viralizaram no TikTok, mostram jovens em cenas simuladas de recusa amorosa e, em seguida, desferindo socos e chutes contra o que seria a representação de  mulheres. Em algumas versões, a resposta violenta aparece em tom de humor ou em cenas associadas a jogos e efeitos visuais.

O alcance dessas publicações levou a Polícia Federal a abrir inquérito nesta semana para apurar possível incentivo à violência de gênero. A investigação foi solicitada pela Advocacia-Geral da União (AGU). O Ministério da Justiça também cobrou explicações da plataforma. Segundo a pasta, a responsabilidade não se limita à retirada de conteúdos denunciados, mas inclui a remoção imediata de materiais semelhantes. O TikTok informou que os vídeos violam suas regras e foram excluídos.

Entre os conteúdos criticados está uma publicação associada ao influenciador baiano Lipe Daily, que reúne cerca de 1,5 milhão de seguidores. No vídeo, ele simula um pedido de casamento rejeitado e, na sequência, surge uma cena de videogame em que um míssil destrói uma casa. Após a repercussão negativa, o criador removeu o material e afirmou que a gravação teria sido feita em 2024, antes da trend, e que também teria sido retirada de contexto.

Machosfera: comunidades digitais e ressentimento masculino

Essa tendência dialoga com o crescimento da chamada “machosfera”, um conjunto de fóruns, canais e perfis que são voltados ao público masculino. Embora muitos espaços se apresentem como ambientes de debate sobre autoestima, relacionamentos ou saúde mental, boa parte desses conteúdos é responsável por reforçar discursos de antagonismo entre homens e mulheres.

A circulação ocorre em redes sociais, podcasts, plataformas de games e aplicativos de namoro. O formato costuma dar privilégio a narrativas simplificadas sobre frustração amorosa e perda de status social, além de também incentivar estratégias de afirmação masculina por meio da hostilidade ou pela desvalorização feminina.

O que é o movimento Redpill, ideologia por trás dos discursos

Dentro da machosfera, o movimento redpill ganhou projeção como uma subcultura online que sustenta a ideia de que os homens seriam prejudicados por transformações sociais recentes. Seguidores afirmam ter “despertado” para uma realidade em que o feminismo teria enfraquecido a masculinidade tradicional.

Um dos principais difusores dessa narrativa é o influenciador britânico-americano Andrew Tate, que reúne milhões de seguidores nas redes sociais. Ele ganhou notoriedade ao associar discursos sobre domínio masculino e submissão feminina à ostentação de riqueza e estilo de vida luxuoso. Tate responde a processos por crimes como tráfico humano e estupro, acusações que ele nega.

No Brasil, um dos lemas populares dentro desse universo, “regret nothing”, expressão em inglês que significa “não se arrependa de nada”, estava estampado na camiseta utilizada por Victor Hugo de Oliveira Simonin ao se apresentar à polícia no Rio de Janeiro. O homem é um dos acusados de estupro coletivo contra uma jovem de 17 anos. As investigações contra o homem já identificaram, inclusive, outras vítimas de violência sexual.

Algoritmos, humor e banalização da violência

Para a professora Graciela Natansohn, do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas da UFBA, as plataformas digitais ampliam padrões históricos de violência. “As tecnologias digitais não inventaram as violências mas reformularam suas formas, estratégias e alcance”, afirma. 

Segundo ela, o modelo de negócios das redes, baseado em engajamento, favorece a circulação de conteúdos que despertam raiva ou choque, enquanto o uso de memes e humor contribui para banalizar agressões. “A situação nao é inevitável: precisamos falar de soberania digital, soberania de dados, IA com perspectiva de gênero e raça. As comunidades de software livre, de hackers, o próprio organismo de governança da Internet no Brasil ( o CGI) vem colocando a necessidade de novos espaços nacionais, soberanos, controlados por organismos colegiados e participativos”.

Na mesma linha, o pesquisador André Lemos, coordenador do Lab 404 da UFBA, observa que a lógica algorítmica prioriza aquilo que gera debate e polêmica. “Na verdade, a lógica é potencializar a circulação gerando engajamento nas redes sociais”, diz. Para ele, a amplificação ocorre tanto pela dinâmica das plataformas quanto pelo comportamento dos próprios usuários, que compartilham e comentam conteúdos controversos.

“A plataforma expressa os indivíduos e ela vai potencializar aquilo que nós fazemos. Então não existe o indivíduo e a ferramenta, existe um híbrido que se constitui nessa ação. Portanto, é as duas coisas: a forma como a sociedade se comporta, amplificado pela lógica comercial dos algoritmos que querem monetizar a partir dessa polêmica”, afirma.

Propostas no Congresso contra misoginia seguem parados

Em meio aos casos, Câmara dos Deputados tem no mínimo 36 projetos de lei que discutem a misoginia em tramitação. Um levantamento realizado pela Globonews indentificou que, destas, 33 propostas são assinadas por parlamentares mulheres.

Nesta quarta-feira (11), a Comissão de Direitos Humanos do Senado pode analisar um projeto de lei que prevê a criminalização da misoginia no Brasil. A proposta, de autoria da senadora Ana Paula Lobato (PDT-MA), altera a Lei do Racismo para incluir a misoginia como forma de discriminação e institui a Política Nacional de Combate à Misoginia.

O texto já havia sido aprovado em dezembro pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) em decisão terminativa e seguiria diretamente para a Câmara dos Deputados. No entanto, um recurso apresentado pelo senador Eduardo Girão (Novo-CE) levou a matéria a uma nova etapa de análise.

Com isso, o projeto voltou a tramitar no Senado e deve ser apreciado tanto pela Comissão de Direitos Humanos quanto novamente pela CCJ antes de eventual envio à Câmara.