Matéria publicada originalmente no Jornal Metropole em 3 de maio de 2024
Protestos estudantis contra a guerra em Gaza estão se espalhando pelos campi universitários dos Estados Unidos, alcançando instituições de ensino prestigiadas, como Columbia, Harvard e Yale. Os manifestantes denunciam a atuação de Israel na guerra contra o grupo Hamas e pedem para que as universidades cortem laços com o Estado israelense, principalmente no setor bélico.
Professores e estudantes judeus da Universidade de Columbia relataram que não se sentiam seguros, enquanto outros expressaram apoio às manifestações. O cenário reflete uma divisão dentro das comunidades estudantis, onde diferentes perspectivas sobre o conflito israelense-palestino alimentam debates acalorados. Relatos de aumento de antissemitismo surgiram em meio aos protestos, assim como a islamofobia.
Em entrevista à Rádio Metropole, o jornalista Pedro Doria destacou que as questões políticas, especialmente as mais complexas com a guerra em Gaza, são frequentemente abordadas numa lógica maniqueísta: o mundo dividido entre o bem e o mal. Essa tendência é evidente, como observado ele, nos protestos estudantis pró-Palestina. “Perdemos a habilidade de conversar sobre política”, afirma o jornalista, pontuando que não enxerga essas manifestações apenas de forma positiva.
Ao expressar preocupação com os protestos, embora reconheça a importância da causa palestina, Doria ressalta que tratar os judeus sem reconhecer sua humanidade e considerá-los representantes de alguma conspiração é um claro exemplo de antissemitismo. “O povo judeu não é reconhecido como uma minoria, mesmo após o Holocausto, isso não é percebido nesta geração”, observa.
Segundo Doria, em países onde o racismo, misoginia e homofobia imperam, os grupos minorizados criam movimentos identitários e chegam a radicalizar “a ponte de romper com a necessidade de convencer o outro lado”. O problema, de acordo com a análise dele, é que consistentemente os judeus são excluídos desse processo.
“O judeu não pode falar sobre a sua dor, sobre como ele sente na pele preconceito racial, sobre as dificuldades que passa. Tanto aqui no Brasil quanto nos Estados Unidos, não existe lugar mais solitário hoje do que ser um judeu de esquerda, porque ele tem dentro da comunidade judaica pouco espaço e fora é percebido como genocida. O problema que eu vejo nesses protestos são que ele são, sim, pelo fim da guerra, mas simultaneamente têm um traço antissemita, porque tratam todo judeu como um inimigo, como um representante do Estado de Israel, das políticas do governo Benjamin Netanyahu”, explicou.
7 de outubro
Durante a entrevista, Doria pontuou que o ataque de 7 de outubro foi o primeiro pogrom — ação provocada para causar estragos, terror e morte para expulsar pessoas das aldeias — desde a Segunda Guerra Mundial.
“O governo de Netanyahu tem a mancha de ser o primeiro governo israelense a permitir que um ataque desse tipo fosse feito contra o povo judeu, o ataque de terror, destruição, morte, de barbárie. Qual a resposta que o governo Netanyahu dá? É partir para destruir por completo. E é claro que existem inúmeras pessoas em Gaza que mesmo disfarçadamente pertencem ao Hamas. O problema é que isso não é verdade a respeito de toda a população de Gaza. Então você começa uma guerra que poderia ser justificada talvez ao longo do primeiro mês, mas que a gente chegou a um ponto hoje que tem uma situação grave de uma tragédia humanitária em curso”, disse.
Ao analisar a postura do primeiro- -ministro, o jornalista pontuou que Netanyahu é alvo de várias acusações de corrupção e já atingiu uma reprovação de 90%. “Todos sabem que quando houver uma nova eleição, esse governo vai cair e entra um novo governo com um grupo que vai ser uma composição entre o centro-liberal e a esquerda social-democrata. Esse novo governo vai provavelmente mudar muito as políticas atuais do Estado de Israel, só que no momento que o Netanyahu cair ele vai estar muito mais exposto à Justiça, então ele fica prorrogando essa guerra de forma a se manter no governo”, avaliou.
Para enfatizar que o antissemitismo não deve ser subestimado nos debates políticos atuais, o jornalista destaca a gravidade dos ataques contra a população judaica. “O antissemitismo é um preconceito racial com dois mil anos de história, sendo um dos dois crimes que resultaram em genocídios, o outro sendo a escravidão contra os negros […] Em 1933, havia 15,7 milhões de judeus no mundo, dos quais 6 milhões foram mortos. Hitler quase exterminou o povo judeu; se tivesse mais dois anos, teria conseguido”, enfatizou

